{"id":7936,"date":"2018-03-28T15:04:05","date_gmt":"2018-03-28T15:04:05","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7936"},"modified":"2019-03-25T18:07:31","modified_gmt":"2019-03-25T18:07:31","slug":"a-vida-de-ligia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/03\/28\/a-vida-de-ligia\/","title":{"rendered":"A vida de L\u00edgia"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ines.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7940\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ines-228x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\nIn\u00eas Bras\u00e3o, soci\u00f3loga, \u00e9 professora no Instituto Polit\u00e9cnico de Leiria (ESTM)) e investigadora Integrada no <a href=\"http:\/\/ihc.fcsh.unl.pt\/\">IHC (FCSH_UNL)<\/a> e <a href=\"http:\/\/citur.ipleiria.pt\/pt\/\">CITUR (IPL).<\/a><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Percurso\u00a0 <\/strong><br \/>\nDoutorada pela Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 1997, foi distinguida com\u00a0o <em>Pr\u00e9mio Carolina Michaelis de Vasconcelos<\/em>\u00a0pela sua disserta\u00e7\u00e3o na \u00e1rea dos estudos sobre a mulher. Em 2011, obteve o<em>\u00a0<i>Pr\u00e9mio Maria Lamas<\/i>\u00a0<\/em>pela\u00a0<span class=\"gmail-il\">hist\u00f3ria<\/span>\u00a0das criadas de servir. Entre outros livros, publicou\u00a0<em><i>O Tempo das Criadas<\/i>\u00a0(2012),\u00a0<a href=\"https:\/\/livroslemondediplomatiqueedicaoportuguesa.wordpress.com\/\"><i>Dons e Disciplinas do Corpo Feminino<\/i><\/a>\u00a0(1\u00aa e 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o revista),\u00a0<i>Hotel, Os Bastidores<\/i>\u00a0(2017) e\u00a0<i>Vis\u00f5es Cruzadas: um retrato da Lagoa de \u00d3bidos<\/i>\u00a0(2015).<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n28 de Mar\u00e7o de 2018<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]L\u00edgia \u00e9 o nome fict\u00edcio de uma mulher de oitenta anos. Tem a vida marcada por um acontecimento traum\u00e1tico de que nunca se refez. Foi mulher casada aos vinte e quatro, mas apenas durante nove meses. Eram os anos 40, em Portugal. \u201cFui muito infeliz. Fui enganada\u2026\u201d e meteu-se-me num pesado sil\u00eancio, numa mesa de caf\u00e9 perto do antigo cinema Imp\u00e9rio. Imaginei problemas v\u00e1rios, mas s\u00f3 aos poucos me fui apercebendo do secreto acontecimento. Era um segredo sobre sexo e, passados tantos anos, L\u00edgia ainda n\u00e3o conhecia um caminho f\u00e1cil para o contar: \u201cFui usada para encobrir\u201d.<\/p>\n<p>L\u00edgia foi metida num plano-fachada. Alberto escolheu-a como alvo de uma uni\u00e3o artificial para se salvar do julgamento impiedoso \u00e0 sua masculinidade. Acautelou contactos f\u00edsicos pr\u00e9vios e encenou uma performance conforme ao galanteio exigido na \u00e9poca. Ap\u00f3s o dia de casamento veio ao de cima a rela\u00e7\u00e3o homossexual que mantinha com um companheiro, seu amado e amante. Os primeiros ind\u00edcios foram revelados a L\u00edgia no contacto \u00edntimo e na sexualidade n\u00e3o-entendida, como se a comunica\u00e7\u00e3o do desejo n\u00e3o flu\u00edsse, a um e outro, e os afastasse, em vez de unir. Sejamos claros. Estamos perante duas v\u00edtimas de um sistema opressor que as conduziu ao tr\u00e1gico e insuport\u00e1vel caminho, abrindo fundas e m\u00fatuas feridas. Os homossexuais foram perseguidos e invisibilizados pelo regime fascista portugu\u00eas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. \u201cA homossexualidade n\u00e3o existe\u201d \u2013 podia ter sido um <em>slogan<\/em> posto a circular por uma qualquer fonte oficial da \u00e9poca, mas ainda que n\u00e3o tenha sido posto a circular foi a aniquila\u00e7\u00e3o p\u00fablica de uma possibilidade que esteve na raiz da profunda sociedade homof\u00f3bica em que nos torn\u00e1mos, ao longo de d\u00e9cadas. Essa homofobia est\u00e1 presente em pequenos sinais quotidianos e ajuda-nos a compreender, entre outras coisas, o duplo fardo do papel social atribu\u00eddo \u00e0 mulher, mas tamb\u00e9m ao homem. Julgo que tem havido uma falta de discuss\u00e3o sobre como se educaram e definiram homens at\u00e9 chegarmos aqui. E s\u00f3 depois dessas discuss\u00f5es ainda por fazer conseguiremos definir estrat\u00e9gias onde o binarismo entre homem e mulher deixem de ter lugar enquanto opositores, ou dominadores e dominados, mas passemos a entender como s\u00e3o um absoluto reflexo de algo intrincado e que n\u00e3o pode ser entendido separadamente. Ali\u00e1s, no mesmo ano em que Judith Butler publicava Gender Trouble, Pierre Bourdieu denunciava um modo de pensar pautado pelas dicotomias e oposi\u00e7\u00f5es e alertava para o peso da viol\u00eancia simb\u00f3lica extrema presente nessas dicotomias, produzindo assimetrias de g\u00e9nero e perpetuando a domina\u00e7\u00e3o masculina.<\/p>\n<h4><em>De que forma tantos (e ainda t\u00e3o pouco debates) sobre o corpo e o sexo penetram em grupos e classes menos favorecidas? Conheci L\u00edgia aos oitenta anos, no final do ano de 2017, e a sua vergonha de um corpo rejeitado continuava intacta: o seu sexo permaneceu intacto at\u00e9 hoje porque justamente nenhuma educa\u00e7\u00e3o sexual a preparou para a ideia de n\u00e3o ser desejada por quem a levou ao altar. N\u00e3o a preparam antes, nem passadas tantas d\u00e9cadas. Como se ainda n\u00e3o tiv\u00e9ssemos compreendido o quanto a circula\u00e7\u00e3o de discursos e ideias atinge grupos de privilegiados sem comunicar com uma enorme massa de indiv\u00edduos<\/em><\/h4>\n<p>Mas voltemos \u00e0s biografias desta mulher e deste homem encontrados s\u00f3s na intimidade e para sempre afastados. Um \u00f3dio a tudo quanto n\u00e3o encaixasse na figura do patriarca ter\u00e1 levado Alberto ao engodo de L\u00edgia, destruindo-lhe grande parte do sonho de feminilidade, mas tamb\u00e9m o seu desejo. Imaginamo-nos hoje sociedades bastante mais abertas e dialogantes, em que o sexo se v\u00ea, fotografa, filma, escreve, publica, grava, analisa e se liberta, mas at\u00e9 que ponto \u00e9 essa abertura ao sexo t\u00e3o transversal? De que forma tantos (e ainda t\u00e3o pouco debates) sobre o corpo e o sexo penetram em grupos e classes menos favorecidas? Conheci L\u00edgia aos oitenta anos, no final do ano de 2017, e a sua vergonha de um corpo rejeitado continuava intacta: o seu sexo permaneceu intacto at\u00e9 hoje porque justamente nenhuma educa\u00e7\u00e3o sexual a preparou para a ideia de n\u00e3o ser desejada por quem a levou ao altar. N\u00e3o a preparam antes, nem passadas tantas d\u00e9cadas. Como se ainda n\u00e3o tiv\u00e9ssemos compreendido o quanto a circula\u00e7\u00e3o de discursos e ideias atinge grupos de privilegiados sem comunicar com uma enorme massa de indiv\u00edduos. E n\u00e3o falo de velhos indiv\u00edduos, falo dos de todas as idades.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o social do car\u00e1ter reprodutivo e maternal da mulher portuguesa foi suportada em espelho pela constru\u00e7\u00e3o social do homem f\u00e9rtil e sustent\u00e1culo familiar. Quanto mais prole e bens acumulados, mais homem. E quanto mais mulheres, mais homem, na exata medida em que a sua virilidade era (e ainda \u00e9) demonstrada para ser vista por outros, revelando capacidade de segurar\/conter\/alimentar mulheres que por ele se prendam. Continuo a ver pais e m\u00e3es babadas perguntar aos filhos rapazes de 9 anos quantas j\u00e1 tem, algo que seria at\u00e9 libertador se houvesse pergunta sim\u00e9trica feita \u00e0s suas filhas, e se o verbo \u201cter\u201d n\u00e3o fosse um mau sintoma de educa\u00e7\u00e3o para a posse e a propriedade. O caso de L\u00edgia e Alberto revelam uma hist\u00f3ria social da sexualidade por contar. S\u00e3o estruturas de pensamento que perduram al\u00e9m dos discursos emancipat\u00f3rios, dos avan\u00e7os legislativos ou das novelas mais ousadas onde estes temas s\u00e3o abordados. Exprime uma realidade social desfasada, na qual indiv\u00edduos vivem em estruturas emocionais, mentais e pol\u00edticas muito distantes das perspetivas otimistas de emancipa\u00e7\u00e3o e liberdade sexual.<\/p>\n<p>N\u00e3o resisto fazer uma refer\u00eancia \u00e0 vis\u00e3o de vanguarda de Alexandra Kollontai<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, feminista russa do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Considero-a uma das vozes mais revolucion\u00e1rias da sexualidade e da pol\u00edtica de g\u00e9nero. O seu vanguardismo expressa-se no facto de encarar a sexualidade uma prioridade, considerando vital concretiz\u00e1-la a partir da base, isto \u00e9, a partir das classes trabalhadoras, alargando progressivamente essa prioridade a todas as outras classes. Kollontai preconizava ser uma tarefa da classe trabalhadora lutar contra a opress\u00e3o sexual vivida pelas mulheres e estabelecer rela\u00e7\u00f5es sexuais mais sadias que, portanto, tornassem a humanidade mais feliz. Kollontai n\u00e3o perdoava aos \u201cburgueses\u201d a atitude de indiferen\u00e7a diante de uma das esferas essenciais para a emancipa\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Dava-lhes recados dizendo considerar inexplic\u00e1vel que o problema sexual fosse relegado, hipocritamente, para o arquivo da esfera privada. Kollontai queria trabalhar a pir\u00e2mide invertida: levar a discuss\u00e3o sobre o sexo para a massa de trabalhadores era o \u00fanico caminho vi\u00e1vel para uma verdadeira (e n\u00e3o apenas ficcionada e parcial) revolu\u00e7\u00e3o sexual e revolu\u00e7\u00e3o social, justamente por ser o centro de tudo: deixar de permitir que as estruturas se sirvam da carne e do sexo da mulher para reproduzir a propriedade e o sistema de desvantagens sociais.<\/p>\n<h4><em>O caso de L\u00edgia e Alberto revelam uma hist\u00f3ria social da sexualidade por contar. S\u00e3o estruturas de pensamento que perduram al\u00e9m dos discursos emancipat\u00f3rios, dos avan\u00e7os legislativos ou das novelas mais ousadas onde estes temas s\u00e3o abordados<br \/>\n<\/em><\/h4>\n<p>Para quem conhece mais que a vida na grande cidade, n\u00e3o faltam hist\u00f3rias como a de L\u00edgia e Alberto contadas \u201c\u00e0 boca pequena\u201d, sobretudo nas pequenas vilas. N\u00e3o faltam, por isso, hist\u00f3rias de repress\u00e3o sexual com consequ\u00eancias muito duras para implicados na rede e nas suas fam\u00edlias. A vergonha de se ser homossexual levou a um investimento desproporcionado em criar uma cena social capaz de representar o papel conveniente, minimizando as suspeitas.<\/p>\n<p>Agora olhemos outra vez para tr\u00e1s. L\u00edgia vinha de uma aldeia pequena: a sua sexualidade iria come\u00e7ar ali, naquele casamento, e provavelmente acabar. Nenhuma educa\u00e7\u00e3o sexual pr\u00e9via, algo que produziu apenas p\u00e2nico, estranheza, medo, incompreens\u00e3o e fuga. O fio da sua vida foi sendo alimentado por esta trag\u00e9dia. L\u00edgia n\u00e3o conseguiu o div\u00f3rcio antes da revolu\u00e7\u00e3o de abril. O pedido foi feito ao Vaticano, mas a Igreja, com a complac\u00eancia do Estado, n\u00e3o a deixou sair dali e libertar-se, ficando presa \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de esposa por mais de vinte anos, sem qualquer apelo. A impossibilidade de requerer o div\u00f3rcio afetou milhares de mulheres portuguesas, muitas delas v\u00edtimas de maus tratos continuados, usadas como fachada em outros sentidos, uma vez que n\u00e3o lhes era concedida dignidade, por exemplo, em termos da qualidade do sexo a que podiam ter tido direito. Maria Archer \u00e9 uma escritora a ler: desmancha solidamente a vida de fam\u00edlias intoc\u00e1veis onde a mulher era dep\u00f3sito de filhos, mas n\u00e3o a amante. O lastro de consequ\u00eancias desastrosas que esta hipocrisia deixou para a vida de mulheres dos nossos dias est\u00e1 por averiguar. L\u00edgia n\u00e3o arranjou outros namorados porque a condi\u00e7\u00e3o oficial de casada os afastava, muitos deles a mando das suas m\u00e3es. Agravando as consequ\u00eancias do trauma, a vida de mulher sem homem dificultou-lhe at\u00e9 o acesso a uma casa pr\u00f3pria, embora trabalhasse para o sustento pr\u00f3prio, enquanto datil\u00f3grafa. Lia os an\u00fancios nos jornais e depois batia \u00e0 porta e a mesma cena sucedia-se, uma e outra vez: \u201c<em>Mas voc\u00ea quer alugar uma casa? Uma rapariga nova? Para que \u00e9 que quer a casa para si? N\u00e3o tem cara disso\u2026 Tem cara de quem quer a casa para fazer neg\u00f3cio, para a fama\u2026 sabe, eles ficavam desconfiados porque julgavam que eu queria a casa para ser \u201cmenina da vida\u201d.<\/em> E aqui chegamos a uma outra desdobragem do leque que acaba por ir afetando, em domin\u00f3, a vida desta, e de tantas outras mulheres. A quest\u00e3o de uma mulher viver sozinha foi (e ainda \u00e9) agravada por duas enormes press\u00f5es: est\u00e1 desligada do casamento e est\u00e1 desligada do seu fim reprodutivo. Numa sociedade repressora e obcecada com a ideia de fam\u00edlia enquanto c\u00e9lula da ideologia, como aconteceu com os fascismos europeus, e nas sociedades democr\u00e1ticas perdura, o conceito de mulher aut\u00f3noma relega-a para o territ\u00f3rio da mulher prostituta, p\u00fablica ou f\u00e1cil. Ali\u00e1s, L\u00edgia foi duplamente penalizada. Sendo de origem popular, cuidadora de crian\u00e7as e, mais tarde, datil\u00f3grafa no pequeno com\u00e9rcio, o seu estigma acelerou-se rapidamente: todos a imaginaram uma \u201cmulher de casa posta\u201d por algum amante ou proxeneta escondido. Se a sua origem fosse de classe m\u00e9dia-alta, a probabilidade deste estigma diminuiria, n\u00e3o tenhamos d\u00favidas. Nos bailes, contava-me, \u201ctudo o que aparecia era casado e era para \u201caconchegos\u201d. E eu pensava assim: \u201c<em>ent\u00e3o agora vou com este, porque gosto dele e vou dan\u00e7ar com ele. Ele depois vai ter a minha casa quando ele quer, e precisa de mim, e depois quando se for embora p\u00f5e dinheiro em cima da mesa\u2026 e eu dizia, isso para mim, n\u00e3o\u2026 Se houver uma pessoa que queira casar comigo ou juntar-se comigo tem que ser livre\u2026 como eu, e a verdade \u00e9 que nunca nenhum quis\u201d<\/em>. Embora a sua moral seja tradicional, porque associa uma rela\u00e7\u00e3o ao casamento, \u00e9 interessante notar que L\u00edgia refletiu a situa\u00e7\u00e3o afetiva em termos de uma paridade de direitos sexuais, e n\u00e3o de uma subjuga\u00e7\u00e3o. E essa reflex\u00e3o n\u00e3o encontrou um par \u00e0 medida. Ainda hoje a situa\u00e7\u00e3o de uma mulher que tenta viver e definir livremente a sua sexualidade \u00e9 de enorme desvantagem: paira sobre n\u00f3s, implac\u00e1vel, em plena segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, a \u201chip\u00f3crita dupla moral\u201d capaz de julgar de forma severa a conduta de uma mulher por oposi\u00e7\u00e3o a uma toler\u00e2ncia no comportamento sim\u00e9trico de um homem. E \u00e9 uma dupla moral que afeta todas as classes sociais. Embora, em algumas, os sorrisos de lado, bocas e piadas, comisera\u00e7\u00e3o ou desconfian\u00e7a, ataque ou incompreens\u00e3o, estejam l\u00e1, mas travestidos.<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 *<\/em><\/p>\n<p>Desde a trag\u00e9dia da vida de L\u00edgia, as suas capacidades de luta e resist\u00eancia foram sendo cerceadas. De Alberto n\u00e3o sabemos porque um longo rompimento se interp\u00f4s entre ambos. Ap\u00f3s o 25 de abril, L\u00edgia foi sendo barrada nas entrevistas de recrutamento porque n\u00e3o dominava uma l\u00edngua estrangeira. Perguntou ao m\u00e9dico que acompanhava a sua prolongada depress\u00e3o sobre se era prudente investir em estudos: \u201c<em>N\u00e3o pense nisso \u2013 a depress\u00e3o que voc\u00ea teve n\u00e3o d\u00e1\u2026 n\u00e3o d\u00e1\u2026 desista da ideia. Voc\u00ea agora tente continuar a fazer a sua vida, e ir fazendo aquilo de que gosta, e aquilo que n\u00e3o puder fazer, n\u00e3o faz\u2026<\/em>\u201d E ent\u00e3o L\u00edgia come\u00e7ou a procurar casas onde pudesse \u201ctrabalhar a dias\u201d. E trabalha a dias at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Ana Correia, <em>Corpo de Delito: A Repress\u00e3o Policial \u00e0 Homossexualidade na Primeira D\u00e9cada do Estado Novo \u2013 Arquivos da Pol\u00edcia de Investiga\u00e7\u00e3o Criminal de Lisboa,<\/em> Lisboa, ISCTE, Departamento de Hist\u00f3ria, 2016 (vers\u00e3o policopiada).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Alexandra Kollontai, <em>Sexual Relations and the Class Struggle: Love and the New Morality<\/em>. Bristol: Falling Wall Press, 1972.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] &nbsp; Uma reflex\u00e3o de\u2026 In\u00eas Bras\u00e3o, soci\u00f3loga, \u00e9 professora no Instituto Polit\u00e9cnico de Leiria (ESTM)) e investigadora Integrada no IHC (FCSH_UNL) e CITUR (IPL). &nbsp; Percurso\u00a0 Doutorada pela Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em 1997, foi distinguida com\u00a0o Pr\u00e9mio Carolina Michaelis de Vasconcelos\u00a0pela sua disserta\u00e7\u00e3o na \u00e1rea [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[816,36,55],"tags":[586,585,71,584],"class_list":["post-7936","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-opiniao","category-noticias","category-noticias-relacionadas","tag-duplo-padrao-sexual","tag-estado-novo","tag-homossexualidade","tag-sexualidade-feminina"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7936","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7936"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7936\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9210,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7936\/revisions\/9210"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}