{"id":7964,"date":"2018-04-28T10:38:00","date_gmt":"2018-04-28T10:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7964"},"modified":"2019-03-25T17:58:55","modified_gmt":"2019-03-25T17:58:55","slug":"o-direito-de-nada-significar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/04\/28\/o-direito-de-nada-significar\/","title":{"rendered":"\u201cO direito de nada significar\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/bonneville_2018-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7973\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/bonneville_2018-1-300x287.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"287\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\"><strong> \u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.miguelbonneville.com\/\"><span style=\"text-decoration: line-through;\">Miguel<\/span> Bonneville<\/a> (Porto, 1985), artista (live art, performance e artes visuais).<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Percursos\u2026<br \/>\n<\/strong>Desde 2003 tem apresentado o seu trabalho em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais. Concluiu os cursos de \u2018Interpreta\u00e7\u00e3o\u2019 na Academia Contempor\u00e2nea do Espect\u00e1culo (2000-2003), \u2018Artes Visuais\u2019 na Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian (2006), \u2018Autobiografias, Hist\u00f3rias de Vida e Vidas de Artista&#8217; no CIES-ISCTE (2008), \u2018Arquivo \u2013 Organiza\u00e7\u00e3o e Manuten\u00e7\u00e3o\u2019 no Citeforma (2013), \u2018Costurar ideias\u2019 na Magestil (2013), e \u2018Cyborgs, Sexo e Sociedade\u2019 na FCSH (2016).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Foto<\/strong><br \/>\nImagem do espet\u00e1culo <a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/home\/sets\/the-importance-of-being-simone-de-beauvoir\/\"><i>A Import\u00e2ncia de Ser Simone de Beauvoir<\/i><\/a>, da autoria de Joana Linda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n28 de Abril de 2018<\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Entrevista<br \/>\n<\/strong>Isabel Freire<strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><span style=\"text-decoration: line-through;\">Miguel<\/span> Bonneville, 33 anos, artista, introduz-nos a hist\u00f3rias autobiogr\u00e1ficas centradas na desconstru\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o da identidade, atrav\u00e9s de performances, desenhos, fotografias, v\u00eddeo, m\u00fasica e livros de artista. Define-se em termos de g\u00e9nero como n\u00e3o sendo nem uma coisa nem outra. Nem feminino nem masculino. \u00c9 por isso que o seu primeiro nome \u00e9 alvo de rasura, na forma como se apresenta.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8220;No sexo ainda h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o quase exclusiva nos \u00f3rg\u00e3os reprodutores, \u00e9 como se o resto do corpo se apagasse. Procuro encontrar outros modos de viver a sexualidade, outros lugares de prazer&#8221;. Nesta entrevista fala-nos de Paul B. Preciado, Simone de Beauvoir e Georges Bataille. Fala-nos tamb\u00e9m do abuso sexual intrafamiliar, de que ainda t\u00e3o pouco se fala.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica \u2013 Quando entramos no seu site, encontramos uma muito breve descri\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica, com um risco sobre o seu nome pr\u00f3prio (Miguel)\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"text-decoration: line-through;\">Miguel<\/span> Bonneville \u2013 <\/strong>Achei que seria essencial ter uma declara\u00e7\u00e3o muito direta sobre o meu trabalho, logo na entrada do <a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/\">site<\/a>. Uma declara\u00e7\u00e3o que deixasse imediatamente claro, de uma forma simples, quais s\u00e3o as caracter\u00edsticas base do meu trabalho.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Como se exprime este risco sobre a palavra <span style=\"text-decoration: line-through;\">Miguel<\/span>, na vida de todos os dias? Pode falar-nos um pouco dessa recusa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013 <\/strong>Em 2012 realizei uma performance na Capela Carlos Alberto, nos jardins do Pal\u00e1cio de Cristal, no Porto \u2013 o funeral do Miguel Bonneville; a \u00faltima parte do meu projeto hom\u00f3nimo. Depois dessa morte, achei que n\u00e3o faria sentido continuar a assinar os meus trabalhos com o mesmo nome, pareceu-me ser necess\u00e1rio criar uma diferencia\u00e7\u00e3o clara entre um antigo eu e um novo eu. Aliando esta necessidade \u00e0s minhas inquieta\u00e7\u00f5es com as quest\u00f5es de g\u00e9nero, e por n\u00e3o encontrar outro nome que fizesse sentido adotar, optei por\u00a0rasurar\u00a0o meu primeiro nome. Bonneville \u00e9 um nome sem g\u00e9nero, n\u00e3o \u00e9 nem masculino, nem feminino, o que est\u00e1 de acordo com o meu pr\u00f3prio g\u00e9nero, que n\u00e3o defino nem como uma coisa nem como outra. A\u00a0rasura\u00a0revela e afirma uma transi\u00e7\u00e3o, mas mant\u00e9m ainda a mem\u00f3ria de uma identidade de outro tempo.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 H\u00e1 discursos (ditos ou n\u00e3o-ditos) em torno do g\u00e9nero e da sexualidade que o tenham afastado mais profundamente de si, no seu percurso de constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> Parece-me que todos os discursos em torno do g\u00e9nero e da sexualidade s\u00f3 me fizeram aproximar mais profundamente de mim, fosse por recusa ou por identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 O que \u00e9 (ou foi) mais complexo na op\u00e7\u00e3o de trabalhar de forma autobiogr\u00e1fica, expondo uma narrativa pessoal e \u00edntima? <\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> Quando comecei a apresentar os primeiros trabalhos, n\u00e3o tinha muito presente o conceito de autobiografia. Sabia que tinha urg\u00eancia em expor ideias que me inquietavam profundamente, e isso era o suficiente. Depois vi-me obrigado a produzir um discurso sobre o trabalho, porque comecei a v\u00ea-lo ser compartimentado e a ser empurrado para dentro de conceitos isolados, a ser categorizado. Ent\u00e3o, comecei a procurar criar um discurso que fosse o mais abrangente poss\u00edvel, que n\u00e3o limitasse o trabalho apenas a uma ou duas categorias fixas, e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que o meu trabalho era <em>autobiogr\u00e1fico<\/em> e <em>performativo<\/em>; duas caracter\u00edsticas que encontro em qualquer trabalho e das quais n\u00e3o h\u00e1 forma de escapar. Ou seja, duas caracter\u00edsticas que abrangem tudo, que a meu ver podem permitir variad\u00edssimos pontos de vista, podem abrir (mais do que fechar) possibilidades. Tudo \u00e9 autobiogr\u00e1fico, tudo \u00e9 performativo.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos aspectos dif\u00edceis que surgem quando se trabalha a partir da autobiografia, mas acho que isso acontece com qualquer trabalho que envolva risco, empenho e honestidade. O confronto consigo mesmo pode ser dif\u00edcil, mas \u00e9 um dos objetivos do trabalho. Faz parte do trabalho lidar com a vulnerabilidade. A exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m faz parte da dificuldade inerente do processo autobiogr\u00e1fico, no entanto acho que o que \u00e9 mais complicado \u00e9 o risco de expor a vida dos outros; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falarmos de n\u00f3s mesmos sem falarmos dos outros, e \u00e0s vezes pode ser arriscado faz\u00ea-lo sem tamb\u00e9m os expormos. Embora \u00e0s vezes expor os outros tamb\u00e9m fa\u00e7a parte do processo. Ter de lidar com as rea\u00e7\u00f5es por parte da fam\u00edlia talvez seja o mais custoso, seja por n\u00e3o perceberem ou por ficarem chocados. Mas, na verdade, essas rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o multiplicadas pelo p\u00fablico em geral; h\u00e1 alguma admira\u00e7\u00e3o, no entanto exigem que me explique, o que \u00e9 compreens\u00edvel, visto que a educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cultural em Portugal \u00e9 lament\u00e1vel e praticamente nula, o que leva a algum desconforto por parte do p\u00fablico \u2013 burgu\u00eas, na sua grande maioria \u2013 porque n\u00e3o \u201ccompreende\u201d, o que leva automaticamente ao seu desejo de exercer autoridade sobre o artista.<\/p>\n<h4><em>O feminismo, para mim, n\u00e3o tem s\u00f3 a ver com a opress\u00e3o ou discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, tem a ver sobretudo com um movimento interseccional que procura combater todas as formas de opress\u00e3o (machismo, racismo, classismo, transfobia, homofobia&#8230;)<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 O seu trabalho questiona o g\u00e9nero e a sexualidade desde o in\u00edcio, em 2003. Genericamente, como reagiu o contexto art\u00edstico portugu\u00eas a propostas com esta centralidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> As rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre muito d\u00fabias, sobretudo porque s\u00e3o raras as pessoas que d\u00e3o a sua opini\u00e3o. Em Portugal h\u00e1 muito medo de falar. \u00c9 um meio muito pequeno, dependemos todos muito uns dos outros, ent\u00e3o qualquer opini\u00e3o menos evasiva pode ser tomada como um insulto \u2013 e nunca se sabe se mais tarde n\u00e3o vamos precisar do apoio dessa pessoa que \u201cinsult\u00e1mos\u201d. Ou seja, fala-se, mas sempre \u00e0s escondidas e, preferencialmente, dos outros e nunca de si pr\u00f3prio. Talvez tenha a ver com a hist\u00f3ria do pa\u00eds &#8211; primeiro a inquisi\u00e7\u00e3o (300 anos), depois o fascismo (40 anos): \u00e9pocas em que se aprendeu que talvez fosse mais seguro n\u00e3o falar de si pr\u00f3prio, porque poderia tornar-se comprometedor.<\/p>\n<p>Por um lado, sempre fui apoiado por um grupo restrito de pessoas, desde professores a pessoas com quem trabalhei, e que programavam os meus trabalhos (Magda Henriques, Daniel Pires\/Maus H\u00e1bitos, Francisco Camacho\/Eira, Carlota Lagido, Ant\u00f3nio C\u00e2mara\/<em>Festival Temps d\u2019Images<\/em>, Jo\u00e3o Manuel Oliveira&#8230;), por outro sentia que era exclu\u00eddo de alguns circuitos que tinham mais visibilidade \u2013 muitas vezes por estar associado a estes e outros artistas; eles pr\u00f3prios empurrados e encaixados para dentro de categorias isoladas.<\/p>\n<p>Parece-me que o meu trabalho sempre teve alguma visibilidade, mas manteve-se \u00e0 margem \u2013 \u00e0s vezes por op\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes por imposi\u00e7\u00e3o. As quest\u00f5es autobiogr\u00e1ficas e as quest\u00f5es ligadas ao g\u00e9nero e \u00e0 sexualidade (que, para mim, n\u00e3o est\u00e3o separadas) tanto suscitavam interesse e curiosidade como desprezo. Curiosamente suscitam o interesse sobretudo de pessoas relacionadas a outras \u00e1reas e outros contextos que n\u00e3o os art\u00edsticos, como a psicologia ou a filosofia, por exemplo. O esfor\u00e7o que tenho feito tem sido sempre no sentido de <em>des<\/em>centralizar. Sim, autobiografia, identidade, g\u00e9nero, sexualidade, fazem parte do meu trabalho, como fazem tamb\u00e9m a pr\u00f3pria arte, a hist\u00f3ria da arte, o meio art\u00edstico, a mem\u00f3ria, a fam\u00edlia, a classe, as f\u00e1bulas, o amor, a religi\u00e3o, os animais&#8230;<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Em 2016 promoveu um encontro aberto com grupos, coletivos e organiza\u00e7\u00f5es para falar das preocupa\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias relativas a assuntos relacionados com o g\u00e9nero, a sexualidade, a ra\u00e7a, a classe e a identidade (<em>Bordel Filos\u00f3fico<\/em>). O que saiu deste ponto de encontro que tenha sido mais importante para si?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> Foi excepcional poder contar com a presen\u00e7a das <em>Femafro<\/em>, L\u00f3bula e Panteras Rosa, sobretudo para as <em>ouvir<\/em>.<\/p>\n<h4><em>A partir das obras de Preciado tentei ir mais fundo na minha rela\u00e7\u00e3o com o meu corpo, com a minha sexualidade, que, de facto, nunca se identificou com a norma<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 Visitou a obra de Paul B. Preciado e refletiu sobre o lugar do g\u00e9nero e da sexualidade de corpos que n\u00e3o se identificam com a norma (em <a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/home\/sets\/the-importance-of-being\/\"><em>A import\u00e2ncia de ser Paul B. Preciado<\/em><\/a>). O que sentiu\/como se sentiu nestes lugares?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> N\u00e3o se tratou de uma esp\u00e9cie de excurs\u00e3o a esses corpos, mas sim de um aprofundamento sobre o meu pr\u00f3prio corpo. A partir das obras de Preciado tentei ir mais fundo na minha rela\u00e7\u00e3o com o meu corpo, com a minha sexualidade, que, de facto, nunca se identificou com a norma. Sobretudo com a performance <a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/home\/albums\/cherie-cheri\/\"><em>Ch\u00e9rie, Ch\u00e9ri<\/em><\/a> \u2013 que foi realizada para um espectador de cada vez \u2013 senti que consegui chegar muito pr\u00f3ximo de um ideal. A rela\u00e7\u00e3o de intimidade era imediatamente estabelecida, tanto eu como o espectador est\u00e1vamos num territ\u00f3rio muito vulner\u00e1vel, e isso permitiu que pud\u00e9ssemos extrapolar a rela\u00e7\u00e3o convencional entre performer e espectador, e criar um espa\u00e7o onde, virtualmente, eu poderia estar mais perto daquilo que sou, poderia estar mais perto de ter o corpo que mere\u00e7o.<\/p>\n<p>A descentraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocupa apenas um lugar na minha obra, mas tamb\u00e9m na forma como vivo a minha vida, como vivo a minha sexualidade. No sexo ainda h\u00e1 uma concentra\u00e7\u00e3o quase exclusiva nos \u00f3rg\u00e3os reprodutores, \u00e9 como se o resto do corpo se apagasse. Procuro encontrar outros modos de viver a sexualidade, outros lugares de prazer. Acho a reprodu\u00e7\u00e3o abomin\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 \u00c9 sobrevivente de abuso sexual intrafamiliar, na inf\u00e2ncia. Trabalhou de forma confessional as mem\u00f3rias destas viv\u00eancias na exibi\u00e7\u00e3o <em><a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/home\/sets\/abuse-2\/\">Abuso<\/a> (Projeto Fam\u00edlia)<\/em> em 2009. Como v\u00ea o tratamento desta tema na sociedade portuguesa, nos nossos dias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> N\u00e3o vejo. Parece-me continuar a ser algo do qual n\u00e3o se fala nem aberta nem publicamente, e muito pouco em privado.<\/p>\n<h4><em>Bonneville \u00e9 um nome sem g\u00e9nero, n\u00e3o \u00e9 nem masculino, nem feminino, o que est\u00e1 de acordo com o meu pr\u00f3prio g\u00e9nero, que n\u00e3o defino nem como uma coisa nem como outra. A\u00a0rasura [<\/em>sobre o nome pr\u00f3prio] <em>revela e afirma uma transi\u00e7\u00e3o, mas mant\u00e9m ainda a mem\u00f3ria de uma identidade de outro tempo<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 Vai voltar a escutar e a parafrasear mulheres que escutou e parafraseou h\u00e1 cerca de 10 anos no <a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/home\/sets\/miguel-bonneville-22\/\">projeto <em>MB#6<\/em><\/a>. Qual a import\u00e2ncia do feminino em\/para si?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> Durante muito tempo o feminino \u2013 talvez seja mais exato dizer os femininos \u2013 foi o modelo alternativo (ao masculino) que procurei para me construir. Sobretudo na inf\u00e2ncia, antes de ter uma perspectiva mais consciente e informada sobre as constru\u00e7\u00f5es sociais, quando os exemplos que tinha presentes eram apenas os dos pap\u00e9is tradicionais.<\/p>\n<p>As mulheres \u00e0 minha volta sempre foram exemplos de um estoicismo inigual\u00e1vel, sem que isso significasse falta de afabilidade. Sentia um contraste enorme entre essa firmeza, a capacidade enorme de sobreviv\u00eancia, de suportar e superar as dificuldades, e a cobardia e a dist\u00e2ncia por parte dos homens. Duas formas muito diferentes, opostas, de lidar com a culpa. \u00c9 claro que \u00e9 sempre perigoso generalizar e h\u00e1 sempre muitas exce\u00e7\u00f5es, mas a verdade \u00e9 que sentia (e ainda sinto) uma diferen\u00e7a aguda de comportamento que se deve ainda \u00e0s normas sociais tradicionais relativas ao g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Quero deixar claro que falo aqui de mulheres sobretudo por causa do projeto em quest\u00e3o; n\u00e3o associo o feminino exclusivamente s\u00f3 \u00e0s mulheres. E tenho v\u00e1rias quest\u00f5es em torno da quest\u00e3o: o que \u00e9 <em>ser<\/em> mulher?<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Como se posiciona em rela\u00e7\u00e3o ao feminismo, e em que ponto se aproxima e\/ou se afasta de Simone de Beauvoir (sobre quem se debru\u00e7ou no projeto <a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/home\/sets\/the-importance-of-being-simone-de-beauvoir\/\"><em>A import\u00e2ncia de ser Simone de Beauvoir<\/em><\/a>, em 2014)?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> Percebi que era feminista por causa da Simone de Beauvoir. Ou seja, tornou-se mais claro o caminho que tinha estado a tra\u00e7ar; compreendi que linhagem tinha a minha filosofia, e de que forma \u00e9 que o meu trabalho era pol\u00edtico. N\u00e3o h\u00e1 nada que me afaste da Beauvoir (a n\u00e3o ser talvez o Sartre, visto que n\u00e3o nutro grande simpatia por ele, mas \u00e9 um pormenor). O contacto com as obras da Beauvoir mudou profundamente a minha rela\u00e7\u00e3o comigo mesmo, porque de repente tive acesso a um exemplo de algu\u00e9m que sustentava inteligente e fundamentadamente as minhas cren\u00e7as, que me defendia. E esse conhecimento mais profundo sobre mim permitiu-me ser mais assertivo, logo menos manipul\u00e1vel.<\/p>\n<p>O feminismo, para mim, n\u00e3o tem s\u00f3 a ver com a opress\u00e3o ou discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, tem a ver sobretudo com um movimento interseccional que procura combater todas as formas de opress\u00e3o (machismo, racismo, classismo, transfobia, homofobia&#8230;).<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Disse-me que George Bataille \u00e9 a pr\u00f3xima figura a inspirar a sua reflex\u00e3o (ainda no contexto d\u2019<em>A import\u00e2ncia de ser<\/em>). Bataille \u00e9 um pr\u00e9\/texto para\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> Para apagar o meu nome, para me devolver o direito de nada significar, para retornar a um pensamento no qual a identidade falha, para voltar a tentar fugir ao objeto, para transbordar, para dar in\u00edcio a mais um suic\u00eddio.<\/p>\n<h4>[O abuso sexual intrafamiliar]<em> parece-me continuar a ser algo do qual n\u00e3o se fala nem aberta nem publicamente, e muito pouco em privado<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC \u2013 H\u00e1 algum espa\u00e7o ou algum tempo que gostasse de visitar\/viver?<\/strong><\/p>\n<p><strong>MB \u2013<\/strong> H\u00e1 muitos lugares que gostava de visitar. N\u00e3o sei se gostaria de fazer uma viagem no tempo para conhecer outra \u00e9poca \u2013 tenho a certeza de que seria decepcionante. Acho prefer\u00edvel ficar com a ideia fantasiosa do amor livre, da liberdade, da igualdade e da fraternidade. \u00c9 mais f\u00e9rtil a nostalgia.<\/p>\n<p>Se pudesse tornar-me espa\u00e7o, desfazer-me desta ideia de humano, ir em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 obscuridade, ent\u00e3o era isso que faria.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/a-importa\u0302ncia-de-ser-simone-de-beauvoir_miguel-bonneville_03_fotografia-de-joana-linda.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7965\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/a-importa\u0302ncia-de-ser-simone-de-beauvoir_miguel-bonneville_03_fotografia-de-joana-linda-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<p>Fotografia de Joana Linda.\u00a0Imagem do espet\u00e1culo <a href=\"http:\/\/miguelbonneville.com\/home\/sets\/the-importance-of-being-simone-de-beauvoir\/\"><i>A Import\u00e2ncia de Ser Simone de Beauvoir.<\/i><\/a>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] &nbsp; \u00c0 conversa com\u2026 Miguel Bonneville (Porto, 1985), artista (live art, performance e artes visuais). Percursos\u2026 Desde 2003 tem apresentado o seu trabalho em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais. Concluiu os cursos de \u2018Interpreta\u00e7\u00e3o\u2019 na Academia Contempor\u00e2nea do Espect\u00e1culo (2000-2003), \u2018Artes Visuais\u2019 na Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian (2006), \u2018Autobiografias, Hist\u00f3rias de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[815,36,55],"tags":[262,195,488,176,593,591,111,592,594],"class_list":["post-7964","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","category-noticias","category-noticias-relacionadas","tag-abuso-sexual","tag-arte","tag-feminismo","tag-genero","tag-genero-e-arte","tag-performance","tag-sexualidade","tag-sexualidade-e-arte","tag-simone-beauvoir"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7964"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7964\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9206,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7964\/revisions\/9206"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}