{"id":7988,"date":"2018-04-28T10:02:06","date_gmt":"2018-04-28T10:02:06","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=7988"},"modified":"2019-03-25T18:01:26","modified_gmt":"2019-03-25T18:01:26","slug":"o-oraculo-de-delfos-a-sexualidade-no-decurso-da-evolucao-hominidea-e-o-que-a-arte-nos-pode-dizer-na-ausencia-da-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/04\/28\/o-oraculo-de-delfos-a-sexualidade-no-decurso-da-evolucao-hominidea-e-o-que-a-arte-nos-pode-dizer-na-ausencia-da-escrita\/","title":{"rendered":"O Or\u00e1culo de Delfos, a sexualidade no decurso da evolu\u00e7\u00e3o homin\u00eddea e o que a Arte nos pode dizer na aus\u00eancia da escrita"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/DSJ_7768.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-7989\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/DSJ_7768-300x269.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"269\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma reflex\u00e3o de\u2026<\/strong><br \/>\nA. Santinho Martins, endocrinologista, sex\u00f3logo e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica (2004-2005).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Percurso\u00a0 <\/strong><br \/>\nLicenciado em Medicina pela Universidade Cl\u00e1ssica de Lisboa. Assistente Hospitalar Graduado de Endocrinologia do Hospital J\u00falio de Matos (aposentado em 2005). Colaborador do Servi\u00e7o de Gen\u00e9tica do Hospital de Dona Estef\u00e2nia (1994-1998). Professor auxiliar convidado do Mestrado em Sexologia da Universidade Lus\u00f3fona (entre 1998 e 2014). Regente da Cadeira de Ergonomia da Faculdade de Belas Artes de Lisboa (1985-1992). Pr\u00e9mio Ricardo Jorge de Sa\u00fade P\u00fablica, 1984 (em co-autoria).<em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n28 de Abril de 2018<\/p>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]O Or\u00e1culo de Delfos estava situado, como o nome indica, numa, ao tempo, importante cidade grega entretanto desaparecida, localizada nas encostas do Monte Parnaso. O Templo dedicado a Apolo, foi fundado no s\u00e9c. VIII aC, teve uma longa dura\u00e7\u00e3o de cerca de mil anos, tal a import\u00e2ncia das previs\u00f5es ali efectuadas que mereceram a aten\u00e7\u00e3o das mais destacadas figuras das Culturas grega e romana. A figura central era a sacerdotisa de servi\u00e7o denominada pitonisa.<\/p>\n<p>A sala, onde se antevia o futuro, era relativamente pequena e estava situada sobre uma fenda geol\u00f3gica, donde emergiam vapores, que uma equipa multidisciplinar de investigadores, h\u00e1 menos de vinte anos, concluiu que havia um g\u00e1s dilu\u00eddo nesses vapores, o etileno. A pitonisa, que teria uma fun\u00e7\u00e3o de m\u00e9dium, sentava-se num banco, \u00e0 beira da fenda e ia inalando os vapores que lhe provocavam um transe benigno, permanecendo consciente e euf\u00f3rica, o que lhe permitia a comunica\u00e7\u00e3o com Apolo e a resposta \u00e0s perguntas que lhe eram encomendadas. N\u00e3o h\u00e1 a certeza, se a resposta amb\u00edgua, como interessava, era dada directamente pela pitonisa, ou se era interpretada pelos sacerdotes face \u00e0s palavra e \u00e0s vocaliza\u00e7\u00f5es assim como pelas posturas corporais. Pensa-se que haveria mais do que uma pitonisa de servi\u00e7o que se revezavam, para n\u00e3o se exporem excessivamente \u00e0s sucessivas intoxica\u00e7\u00f5es que poderiam causar a morte, embora estas sess\u00f5es n\u00e3o fossem cont\u00ednuas nem, t\u00e3o pouco, di\u00e1rias.<\/p>\n<p>A que prop\u00f3sito \u00e9 aqui convocado o Or\u00e1culo de Delfos, onde se adivinhava o futuro?<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos uma rota\u00e7\u00e3o de 180<sup>o <\/sup>e obteremos assim como que um Or\u00e1culo de Delfos \u201cinverso\u201d, virado para o passado e vejamos quem s\u00e3o os actuais decifradores do passado, eles s\u00e3o os paleoarque\u00f3logos, os paleoantrop\u00f3logos, os paleobi\u00f3logos, os paleoclimatologistas, os paleontologistas. \u00c9 muita gente a trabalhar seriamente para tentar desvendar o passado, com rigor cient\u00edfico, um passado com sete milh\u00f5es de anos, mas a Ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel nem est\u00e1tica, ela est\u00e1 em cont\u00ednua evolu\u00e7\u00e3o, aprofundando conhecimentos, partindo para novas hip\u00f3teses, que se podem confirmar ou n\u00e3o. O pr\u00f3prio processo investigativo arqueol\u00f3gico, sofre de uma limita\u00e7\u00e3o: as metodologias utilizadas, por raz\u00f5es \u00f3bvias, n\u00e3o permitem a sua replica\u00e7\u00e3o, deixando em aberto um vasto campo \u00e0 especula\u00e7\u00e3o e \u00e0 subjectividade. Mas certo, certo, \u00e9 que, nos \u00faltimos cinquenta anos, os conhecimentos relativos \u00e0 linhagem homin\u00eddea teve um desenvolvimento fant\u00e1stico coincidente com o da Medicina, e aproveitando-lhe conhecimentos e novas tecnologias por ela utilizados, como a Neuroimagiologia, estudos hormonais, a Biologia molecular, a Gen\u00e9tica e o Genoma humano, tornando mais compreens\u00edvel o actual comportamento sexual humano, que permite regredir no tempo e perceber como aconteceu todo o processo evolutivo na forma\u00e7\u00e3o da sexualidade e como esses mecanismos selectivos continuam presentes.<\/p>\n<p>Poder\u00e3o alguns dizer que n\u00e3o lhes interessa o passado, mas sim o futuro, como em Delfos. N\u00e3o penso assim, mas para valorizar a minha opini\u00e3o, n\u00e3o me ocorre onde li, mas pelo seu humor, n\u00e3o esqueci que, para credibilizar as nossas afirma\u00e7\u00f5es h\u00e1 sempre o recurso a um fil\u00f3sofo grego de servi\u00e7o:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o obstante o parentesco e as semelhan\u00e7as [com chimpanz\u00e9s, os c\u00e3es e os gatos, os elefantes e os golfinhos, os lobos] s\u00e3o avassaladores, sendo importantes para nos ajudarem a compreendermo-nos e a perceber como cheg\u00e1mos ao que somos\u201d. N\u00e3o \u00e9 grego, \u00e9 um cientista portugu\u00eas com grande reconhecimento internacional, Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio, que se socorre da Etologia comparada. Vou mais longe, temos obriga\u00e7\u00e3o de tentar conhecer o passado, para compreender o presente e antecipar o futuro.<\/p>\n<p>Se na hist\u00f3ria cl\u00ednica, perguntamos pelos antecedentes familiares, que normalmente n\u00e3o v\u00e3o al\u00e9m dos av\u00f3s, porque n\u00e3o conhecer de antem\u00e3o os ancestrais que se estendem por sete milh\u00f5es de anos e os parentes da linhagem dos s\u00edmios, com os chimpanz\u00e9s e os bonobos a partilharem connosco 97% do nosso ADN?<\/p>\n<p>\u00c9 minha convic\u00e7\u00e3o, que em Sexologia, o conhecimento dos nossos ancestrais ajuda a compreender alguns comportamentos actuais. Sob o ponto de vista, pessoal e profissional, no conhecimento da nossa especia\u00e7\u00e3o vamos encontrar muitas respostas \u00e0s nossas interroga\u00e7\u00f5es, numa base biopsicossocial.<\/p>\n<p>Como exemplo, escudado nos enormes avan\u00e7os da Biologia molecular e da Paleobiologia, recordar que o genoma humano foi determinado em 2003 e o do chimpanz\u00e9 em 2005, seguindo-se de imediato a compara\u00e7\u00e3o entre os dois, mas a insaciabilidade do conhecimento humano levou a que rapidamente se conhecessem os genomas do orangotango, gorila, e bonobo, tendo como consequ\u00eancia a compara\u00e7\u00e3o gen\u00f3mica de todos os grandes s\u00edmios e suas similitudes e diferencia\u00e7\u00f5es. A cada resposta da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica levantam-se invariavelmente novos questionamentos, e, assim, passou-se para a tentativa de encontrar diferen\u00e7as de comportamentos sexuais entre as esp\u00e9cies. A mesma quest\u00e3o foi levantada com a compara\u00e7\u00e3o gen\u00f3mica entre os neandertais e os denisovanos, j\u00e1 extintos, pertencentes \u00e0 tribo Hominini.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o, dos genomas do ancestral comum, \u00faltima partilha de genes h\u00e1 600 000 anos, do <em>Homo sapiens<\/em>, dos neandertais, dos denisovanos, excluindo intercruzamentos entre eles, pode ajudar, em muito, a compreens\u00e3o da estrutura filog\u00e9nica da sexualidade humana.<\/p>\n<p>Incomoda-me, e n\u00e3o s\u00f3 a mim, que haja um certo diferendo entre a gente das ci\u00eancias humanas (psic\u00f3logos, antrop\u00f3logos, soci\u00f3logos) e a gente das ci\u00eancias ditas exactas no posicionamento do funcionamento da mente e dos comportamentos humanos e n\u00e3o humanos; \u00e9 evidente que a abordagem, aos temas, utilizando metodologias diferentes, provavelmente, poder\u00e1 levar a conclus\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o coincidentes. Enquanto a gente das ci\u00eancias ditas exactas, onde se enquadra a biologia, num sentido amplo, n\u00e3o tem grande dificuldade em aceitar os aspectos culturais, <em>lato sensu<\/em>, no desenvolvimento psicol\u00f3gico e comportamental humano, j\u00e1 a gente das ci\u00eancias humanas oferece alguma resist\u00eancia \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o das influ\u00eancias biol\u00f3gicas (genes, hormonas e por a\u00ed fora), nesses mesmos desenvolvimentos. Falemos claramente da aprendizagem; n\u00e3o concordo com a teoria da <em>t\u00e1bula rasa, <\/em>defendida por Locke, no s\u00e9culo XVII, retomando a ideia de Arist\u00f3teles de que, ao nascer, o nosso c\u00e9rebro \u00e9 como a t\u00e1bua, coberta por cera, utilizada pelos romanos para a sua escrita, de outra maneira, como uma folha de papel em branco. H\u00e1 comportamentos que s\u00e3o inatos e socorro-me, mais uma vez, de Dam\u00e1sio (2010), \u201co inconsciente gen\u00f3mico, um importante aspecto evolucionista, mant\u00e9m uma certa const\u00e2ncia de comportamentos relacionados com os instintos, comportamentos autom\u00e1ticos, motiva\u00e7\u00e3o, impulsos, que incluem a sexualidade\u201d.<\/p>\n<h4><em>Enquanto a gente das ci\u00eancias ditas exactas, onde se enquadra a biologia, num sentido amplo, n\u00e3o tem grande dificuldade em aceitar os aspectos culturais, <\/em>lato sensu<em>, no desenvolvimento psicol\u00f3gico e comportamental humano, j\u00e1 a gente das ci\u00eancias humanas oferece alguma resist\u00eancia \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o das influ\u00eancias biol\u00f3gicas (genes, hormonas e por a\u00ed fora), nesses mesmos desenvolvimentos<\/em><\/h4>\n<p>A plasticidade neuronal, a modifica\u00e7\u00e3o permanente a n\u00edvel do sistema nervoso central, \u00e9 de dois tipos: <em>tipo estrutural<\/em>, com apari\u00e7\u00e3o e desapari\u00e7\u00e3o selectiva das conex\u00f5es entre neur\u00f3nios; e <em>tipo funcional<\/em>, modifica\u00e7\u00e3o, no funcionamento, das conex\u00f5es j\u00e1 existentes. As duas formas de plasticidade poderiam corresponder a dois est\u00e1dios do desenvolvimento ontog\u00e9nico e \u00e0 codifica\u00e7\u00e3o de dois tipos de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A plasticidade estrutural presente na \u00e9poca pr\u00e9-natal e durante o desenvolvimento p\u00f3s-natal seria determinada pelos genes e pela informa\u00e7\u00e3o sobre o meio. Nesta fase os processos de crescimento e de diferencia\u00e7\u00e3o neural t\u00eam um papel determinante com a apari\u00e7\u00e3o e desapari\u00e7\u00e3o selectiva dos prolongamentos e das conex\u00f5es interneuronais. Hoje sabe-se que no c\u00e9rebro humano, adulto, h\u00e1 regenera\u00e7\u00e3o dos neur\u00f3nios cerebrais, provocando altera\u00e7\u00f5es na sinaptologia cerebral, tamb\u00e9m no hipocampo, estrutura relacionada com aprendizagem e mem\u00f3ria, significando que esta remodela\u00e7\u00e3o sin\u00e1ptica hipocampal, abre caminho a novas aprendizagens.<\/p>\n<p>Ainda dentro dos comportamentos inatos, referir o medo dos primatas, n\u00e3o humanos, \u00e0s serpentes, reagindo com medo, gritos e geralmente fuga. Os macacos rhesus, criados em laborat\u00f3rio, que nunca tiveram qualquer contacto com as serpentes, reagem exactamente do mesmo modo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria da especia\u00e7\u00e3o humana <\/strong><\/p>\n<p>O primeiro s\u00edmio antepassado comum viveu na \u00c1sia e pesava cerca de 200 kg, tendo aparecido h\u00e1 20 milh\u00f5es de anos. Aos 15 milh\u00f5es de anos os orangotangos (<em>Pongo) <\/em>separam-se do antepassado comum. A partir dele, aos 7 milh\u00f5es de anos, formam-se duas novas vias: a humana e a dos chimpanz\u00e9s, que por volta do 1 milh\u00e3o de anos sofrem a separa\u00e7\u00e3o dos bonobos ou chimpanz\u00e9s pigmeus. Os grandes s\u00edmios africanos s\u00e3o o gorila (<em>Gorilla gorila<\/em>), o chimpanz\u00e9 (<em>Pan troglodytes)<\/em> e o bonobo ou chimpanz\u00e9 pigmeu (<em>Pan paniscus)<\/em>. Sigamos a via hominini:<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 7 milh\u00f5es de anos &#8211; Australopithecus arcaicos. <\/strong><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 3,3 milh\u00f5es de anos \u2013 Lucy \u2013 Australopithecus afarensis <\/strong>\u2013 H\u00e1 quem argumente que Lucy e outros Australopitecinos eram b\u00edpedes e portanto considerados hominini, portanto membros primitivos do g\u00e9nero <em>Homo, <\/em>por isso, tamb\u00e9m designados como <strong>Praeanthropus.<\/strong><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 1,7 milh\u00f5es de anos \u2013 Homo habilis<\/strong> \u2013 caracter\u00edsticas particularmente simiescas, com membros superiores mais compridos e os inferiores mais curtos, que n\u00f3s humanos, e com uma curvatura pronunciada dos dedos dos p\u00e9s, o que sugere que subiam \u00e0s \u00e1rvores para dormir ou em situa\u00e7\u00f5es em que se sentissem amea\u00e7ados. Quando procuravam alimentos deslocavam-se pelo ch\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o b\u00edpede. Extinguiu-se aos 1,1 Milh\u00f5es de anos,<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 1,1 milh\u00f5es de anos \u2013 Homo ergaster &gt; Homo erectus<\/strong>. O homo Ergaster \u00e9 tido como progenitor de todas as esp\u00e9cies posteriores de Homo.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 300 000 mil anos \u2013 <\/strong>O Homo Erectus d\u00e1 origem ao<strong> Homos sapiens arcaico <\/strong>e aos <strong>Neandertais <\/strong>(que se extinguiram h\u00e1 30 000 mil anos).<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 200 000 mil anos \u2013 Homo sapiens arcaico<\/strong> t<strong>ardio. <\/strong><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 50 000\/40 000 mil anos &#8211; Homo sapiens sapiens. <\/strong><\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es dos f\u00f3sseis t\u00eam permitido chegar a conclus\u00f5es quanto \u00e0 sua morfologia e locomo\u00e7\u00e3o. O estudo (f\u00edsico e qu\u00edmico) da denti\u00e7\u00e3o habilita-nos a avaliar o tipo de alimenta\u00e7\u00e3o e, a partir da\u00ed, em que condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas viviam e, com estes ind\u00edcios intentar discernir sobre o comportamento sexual dos nossos ancestrais, talvez com tantas certezas como d\u00favidas. Assim, os nossos ancestrais australopitecinos teriam as mesmas dimens\u00f5es corporais que os Chimpanz\u00e9s e bonobos actuais. Os australopitecinos tinham um volume cerebral de 450 cc semelhante aos outros s\u00edmios, e o Homo habilis andava nos 750 cc, mas se se considerar o volume corporal e o volume cerebral, o denominado coeficiente de encefaliza\u00e7\u00e3o, este n\u00e3o \u00e9 muito diferente do dos australopitecinos. No Homo ergaster eram 1250 cc; houve um progressivo aumento e depois um pequeno retrocesso para se fixar nos 1350 cc do Homo sapiens arcaico, mantendo-se at\u00e9 \u00e0 actualidade. No intervalo compreendido entre os 1,7 milh\u00f5es de anos e os 300 000 anos, existiram cerca de 100 000 gera\u00e7\u00f5es. Em conformidade com a teoria evolucion\u00e1ria da selec\u00e7\u00e3o natural, de Charles Darwin, podemos partir para o estudo da sexualidade humana. H\u00e1 dois tipos de selec\u00e7\u00e3o sexual: <em>intrassexual<\/em>, competi\u00e7\u00e3o entre membros do mesmo sexo; e <em>intersexual<\/em>, competi\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o entre os dois sexos. Os primeiros da superfam\u00edlia Hominoideia muito provavelmente teriam rela\u00e7\u00f5es sexuais diurnas. Com os actuais chimpanz\u00e9s, em liberdade, a maior parte das copula\u00e7\u00f5es ocorrem de manh\u00e3 cedo ou no fim da tarde, quando o bando est\u00e1 menos disperso, e com posi\u00e7\u00f5es ventral-dorsal (macho por detr\u00e1s), ainda que, juntamente com os bonobos, tenham um leque maior de posi\u00e7\u00f5es sexuais, como a posi\u00e7\u00e3o face a face, comparados com outros primatas e mam\u00edferos, com a maior parte a concretizar-se no ch\u00e3o. Nos hominini, a posi\u00e7\u00e3o b\u00edpede, implicou um maior desenvolvimento dos gl\u00fateos, portanto um maior volume das n\u00e1degas, resultando nas f\u00eameas, uma oculta\u00e7\u00e3o e diminui\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es da vulva, incluindo o clit\u00f3ris, e, por isso, juntamente com a perda do pelo peitoral e o desenvolvimento mam\u00e1rio, o foco de aten\u00e7\u00e3o sexual, progressivamente, passou do dorso para a parte frontal e consequentemente uma maior frequ\u00eancia de c\u00f3pulas face a face. E se continuarmos a fazer analogias com os chimpanz\u00e9s e bonobos, \u00e9 prov\u00e1vel que as c\u00f3pulas tenham sido em grupo, quer de multimachos quer de multif\u00eameas. No mesmo sentido, os primeiros homin\u00eddeos f\u00eameas devem ter copulado com muitos machos, concedendo acesso preferencial a machos dominantes no seu per\u00edodo mais f\u00e9rtil e evitando rela\u00e7\u00f5es durante parte avan\u00e7ada da sua gravidez e p\u00f3s-parto devido \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o, normalmente prolongada, e aos cuidados com a cria. Deve ter havido uma competi\u00e7\u00e3o intrassexual, entre os machos, procurando uma posi\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel na hierarquia do bando, e com isso um maior sucesso copulat\u00f3rio.<\/p>\n<p>As maiores mudan\u00e7as do comportamento sexual tiveram lugar durante a primeira ou m\u00e9dia evolu\u00e7\u00e3o do Homo. A transi\u00e7\u00e3o dos australopitecinos para os primeiros Homo, n\u00e3o est\u00e1 bem documentada devido \u00e0 escassez de material f\u00f3ssil, desta \u00e9poca de evolu\u00e7\u00e3o mas, apesar deste constrangimento, aponta-se para 1,7 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Com os estudos citogen\u00e9ticos, \u00e9 poss\u00edvel determinar que tipos de rearranjos cromos\u00f3micos ocorreram neste longo caminho da especia\u00e7\u00e3o humana. As modifica\u00e7\u00f5es mais importantes verificaram-se nos cromossomas sexuais X e Y, provavelmente, h\u00e1 cerca de 2 a 3 milh\u00f5es de anos. Houve uma transloca\u00e7\u00e3o, passagem de material gen\u00e9tico, de uma regi\u00e3o, a regi\u00e3o 21.3, do bra\u00e7o longo do cromossoma X para o bra\u00e7o curto do cromossoma Y. Posteriormente, entre 200 000 e 40 000 anos, verificou-se que este material sofreu uma invers\u00e3o parac\u00eantrica (rota\u00e7\u00e3o de 180 graus) ocupando presentemente a regi\u00e3o 11.2, dando origem \u00e0 esp\u00e9cie Homo Sapiens moderno. H\u00e1 recombina\u00e7\u00f5es frequentes nos emparelhamentos cromos\u00f3micos. O cromossoma Y, quando existe genoma masculino, est\u00e1 isolado, e a sua sequ\u00eancia de ADN vai-se degradando com o tempo; h\u00e1 delec\u00e7\u00f5es, perda de partes do cromossoma, mas ele tem uma baixa concentra\u00e7\u00e3o g\u00e9nica, tem alguma capacidade de auto regenera\u00e7\u00e3o, parecendo improv\u00e1vel que provoquem disrup\u00e7\u00f5es, na express\u00e3o de genes fundamentais. O comprimento do cromossoma Y vem diminuindo ao longo de milh\u00f5es de anos, mas se o seu desaparecimento se concretizar, essa hip\u00f3tese s\u00f3 se verificar\u00e1 daqui a 4,5 milh\u00f5es de anos. No entanto, o gene SRY, respons\u00e1vel pela determina\u00e7\u00e3o sexual masculina, pode translocar-se para outros cromossomas, mesmo autosomas que j\u00e1 possuem outros genes respons\u00e1veis pela determina\u00e7\u00e3o sexual. Estas trocas entre os dois cromossomas sexuais, acaba por estabelecer um novo sistema de recogni\u00e7\u00e3o, o sistema de reconhecimento espec\u00edfico do parceiro, que \u00e9 o que define a reprodu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies e as diferencia umas das outras. Um sinal proveniente de um potencial parceiro sexual, desencadeia uma resposta por parte do outro, estabelecendo-se uma cadeia de sinais alternativos entre os dois, respons\u00e1vel por um sucesso ou fal\u00eancia de uma copula\u00e7\u00e3o. Este conceito pode ser aplicado no caso do Homo sapiens, com a linguagem.<\/p>\n<p>Um dos alelos do gene receptor da vasopressina, subtipo AVPR<sub>1a, <\/sub>localizado no cromossoma 12, bra\u00e7o longo, regi\u00e3o 14-15, \u00e9 respons\u00e1vel por polimorfismos relacionados com a vincula\u00e7\u00e3o, sua intensidade e comportamento paternal masculino nas esp\u00e9cies. Humanos e bonobos t\u00eam um receptor diferente dos chimpanz\u00e9s. Os polimorfismos dos AVPRs t\u00eam a ver com o comportamento masculino do emparelhamento, melhor dizendo, monogamia. Muito citada \u00e9 a sua ac\u00e7\u00e3o sobre os arganazes (<em>Microtus Ochrogaster<\/em>).<\/p>\n<p>Quanto aos polimorfismos dos receptores androg\u00e9nicos (ARs), o comprimento da cadeia de repeti\u00e7\u00e3o do triplete CAG, \u00e9 inversamente correlacionada com a compet\u00eancia transcripcional dos ARs, isto \u00e9, quanto menor o seu n\u00famero, maior a sensibilidade \u00e0 testosterona e, maior a capacidade transcripcional no n\u00facleo celular e vice-versa. Varia\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas na distribui\u00e7\u00e3o do alelo do triplete CAG nos ARs e seus polimorfismos, podem explicar diferen\u00e7as na actividade sexual desses grupos. A m\u00e9dia de repeti\u00e7\u00f5es CAG dos ARs, na popula\u00e7\u00e3o europeia \u00e9 de 22,4 com um intervalo de varia\u00e7\u00e3o 18-24, enquanto a n\u00edvel mundial \u00e9 de 10-36.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es individuais nos polimorfismos gen\u00e9ticos dos receptores da dopamina (DRD 4), explicam diferen\u00e7as individuais nas migra\u00e7\u00f5es adaptativas, comportamentos de acasalamento e diferen\u00e7as na promiscuidade sexual. Uma explica\u00e7\u00e3o para as varia\u00e7\u00f5es individuais, pode ser encontrada nas variantes al\u00e9licas codificando para as diferen\u00e7as de express\u00e3o do gene do receptor DRD 4. O gene codificador expressa particularmente para os receptores situados no c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal. Estes polimorfismos variam entre 2 e 11. O locus 5 do DRD 4 est\u00e1 relacionado com o desejo e excita\u00e7\u00e3o sexual. Os portadores de DRD 4.7 evidenciam desejo sexual mais intenso e f\u00e1cil excitabilidade sexual, ultrapassam com facilidade barreiras culturais, apresentam menos descrimina\u00e7\u00e3o sexual, propens\u00e3o para a promiscuidade, desejo de ter descend\u00eancia, rela\u00e7\u00f5es sexuais mais precoces.<\/p>\n<p>A oxitocina e a testosterona influenciam o emparelhamento, aumentam a vincula\u00e7\u00e3o, e com a estimula\u00e7\u00e3o dos mamilos aumentam os comportamentos afiliativos. A vincula\u00e7\u00e3o social \u00e9 fundamental para a sobreviv\u00eancia das esp\u00e9cies, ao favorecer a reprodu\u00e7\u00e3o e a protec\u00e7\u00e3o contra predadores. A oxitocina desencadeia ou modula muitas fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas \u2013 como a felicidade, a atrac\u00e7\u00e3o, o amor \u2013 e tem uma fun\u00e7\u00e3o calmante (como exemplo interessante, extra-humano, temos os bonobos); aumenta com a fase de excita\u00e7\u00e3o e, tem uma liberta\u00e7\u00e3o explosiva com o orgasmo. H\u00e1 tamb\u00e9m diferen\u00e7as individuais relacionadas com os polimorfismos dos seus receptores.<\/p>\n<h4><em>As investiga\u00e7\u00f5es dos f\u00f3sseis t\u00eam permitido chegar a conclus\u00f5es quanto \u00e0 sua morfologia e locomo\u00e7\u00e3o. O estudo (f\u00edsico e qu\u00edmico) da denti\u00e7\u00e3o habilita-nos a avaliar o tipo de alimenta\u00e7\u00e3o e, a partir da\u00ed, em que condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas viviam e, com estes ind\u00edcios intentar discernir sobre o comportamento sexual dos nossos ancestrais, talvez com tantas certezas como d\u00favidas<\/em><\/h4>\n<p>Os bonobos, muito frequentemente envolvem-se em pr\u00e1ticas sexuais e, sem descriminarem o sexo. \u00c9 um dos exemplos, de pr\u00e1ticas sexuais, sem intuitos reprodutivos, gizando aliviar tens\u00f5es intragrupais e para cimentar amizades. Os bonobos, como outros animais o fazem, chimpanz\u00e9s inclu\u00eddos, e, parece que tamb\u00e9m humanos, os bosqu\u00edmanos, oferecem alimentos em troca de sexo, com vantagens rec\u00edprocas (eles copulam mais vezes e elas aumentam a sua ingest\u00e3o cal\u00f3rica). Porque t\u00eam coito face a face, os bonobos aproximam-se mais dos humanos, de tal modo que nas suas manifesta\u00e7\u00f5es sociais se beijam na boca, com introdu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua, assim como na resolu\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es conflituais, apaziguadas com rela\u00e7\u00f5es sexuais, o que n\u00e3o acontece com os chimpanz\u00e9s, cuja finalidade do acto sexual \u00e9 a procria\u00e7\u00e3o, como norma. Os chimpanz\u00e9s tamb\u00e9m fazem, frequentemente, o coito face a face, e as suas f\u00eameas, em pr\u00e1ticas homossexuais, igualmente o fazem, devido \u00e0 dimens\u00e3o aumentada do seu clit\u00f3ris. Uma coer\u00e7\u00e3o excessiva visando a obten\u00e7\u00e3o de favores sexuais, pode levar a respostas agressivas, por parte das f\u00eameas: num extremo, morder o p\u00e9nis do macho, no outro, ignorar o macho e envolver-se em pr\u00e1ticas homossexuais. Os bonobos, talvez por viverem em grupos maiores, t\u00eam uma maior facilidade na sua socializa\u00e7\u00e3o e, da\u00ed consequente, com todas estas manobras. Outra vantagem dos bonobos sobre os chimpanz\u00e9s, \u00e9 que sabem procurar territ\u00f3rios de maior riqueza alimentar.<\/p>\n<p>Uma pr\u00e1tica muito interessante entre os s\u00edmios \u00e9 o catamento, que estabelece uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima entre os parceiros, por efeito da oxitocina e das endorfinas, e um poder relaxante not\u00e1vel, com diminui\u00e7\u00e3o da frequ\u00eancia card\u00edaca, relaxa\u00e7\u00e3o muscular, de tal modo, como os humanos com pr\u00e1ticas de relaxa\u00e7\u00e3o, acabam por adormecer. T\u00eam-se realizado experi\u00eancias interessantes, com opi\u00e1ceos e antagonistas dos receptores opi\u00f3ides (ex. naloxano), que me fazem pensar poder estar-se perante uma depend\u00eancia do catamento.<\/p>\n<p>No decurso da evolu\u00e7\u00e3o dos primatas, o c\u00e9rebro expandiu-se de tr\u00e1s para a frente, sendo a parte anterior (o lobo frontal) a que proporcionalmente cresceu mais. As outras por\u00e7\u00f5es posteriores e laterais, est\u00e3o preferencialmente mais ligadas \u00e0 vis\u00e3o e a outros aspectos perceptivos sensoriais, e \u00e0 mem\u00f3ria; os lobos frontais t\u00eam o controlo dos sistemas de avalia\u00e7\u00e3o e recompensa, de julgamento e tomada de decis\u00e3o. Conectam-se com os sistemas opioid\u00e9rgicos e dopamin\u00e9rgicos e, em algumas zonas, s\u00e3o memorizadas as recompensas. O c\u00f3rtex posterior e medial, filogeneticamente e ontogenicamente mais antigo, processa as recompensas prim\u00e1rias, como a sexual, enquanto a anterior, mais recente, processa as recompensas secund\u00e1rias, dependentes da aprendizagem, envolvendo comportamentos adaptativos. Nos mam\u00edferos, essa camada representa entre 10% a 40% do volume cerebral, nos primatas mais pr\u00f3ximos dos humanos representa 50%, e nos humanos 80%. O neoc\u00f3rtex, com uma camada de 3 mm de espessura, envolve o n\u00facleo interior do ancestral c\u00e9rebro reptiliano, com cerca de 300 milh\u00f5es de anos, que todos os vertebrados partilham. No Homo sapiens, no decurso da evolu\u00e7\u00e3o, sofreu um tal desenvolvimento que teve de se enrugar para se conter dentro da caixa craniana, formando circunvolu\u00e7\u00f5es com uma superf\u00edcie total de dois metros quadrados. \u00c9 a este aumento da superf\u00edcie cortical que se deve o aparecimento da linguagem, do pensamento reflexivo, da consci\u00eancia, da imagina\u00e7\u00e3o, e \u00e9 tamb\u00e9m o que permite aos humanos a liberdade de escolha nas suas ac\u00e7\u00f5es e comportamentos.<\/p>\n<p>Para este aumento cerebral, h\u00e1 v\u00e1rias teorias, desde as biol\u00f3gicas \u00e0s sociol\u00f3gicas. As biol\u00f3gicas, est\u00e3o relacionadas com prov\u00e1veis muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas. Os australopitecinos foram os primeiros homin\u00eddeos a adquirir os genes SRGAP2 duplicados \u2013 h\u00e1 2,4 milh\u00f5es de anos, come\u00e7o da expans\u00e3o do neoc\u00f3rtex \u2013 tendo sofrido mais duas duplica\u00e7\u00f5es ao longo dos tempos, envolvidos na migra\u00e7\u00e3o neuronal, sua diferencia\u00e7\u00e3o e na sinaptagem. Pouco mais ou menos nesta data estabelecem-se duas linhagens, facilmente distingu\u00edveis. Uma, com molares desenvolvidos, assim como a estrutura \u00f3ssea facial para inser\u00e7\u00e3o mais potente dos m\u00fasculos mastigat\u00f3rios, mais desenvolvidos, adequada a uma alimenta\u00e7\u00e3o vegetariana, tendo-se extinguido 1,5 milh\u00f5es de anos depois. A outra, omn\u00edvora, mas predominantemente carn\u00edvora, relacionada com altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, com consequentes altera\u00e7\u00f5es da flora, devido \u00e0 baixa qualidade vegetal, obrigou, sen\u00e3o ao come\u00e7o, pelo menos \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a, o que permitiu a evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie: esta distin\u00e7\u00e3o na linhagem teve a ver com as necessidades energ\u00e9ticas cerebrais, que na actualidade, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades do organismo, se situa entre 20% e 30%. As sociol\u00f3gicas, que fazem depender o crescimento cerebral de compet\u00eancias socias aliadas a teorias da mente, relacionadas com as dimens\u00f5es do grupo em que est\u00e3o inseridos; nos humanos, o contingente de pessoas com as quais mantemos um estreito relacionamento social \u00e9 de cerca de 150 indiv\u00edduos, e nos chimpanz\u00e9s, o n\u00famero m\u00e9dio, nas comunidades a que pertencem, \u00e9 de 50-55 indiv\u00edduos. A fala\/linguagem apareceu como uma necessidade de substitui\u00e7\u00e3o do catamento, quando as dimens\u00f5es do grupo ultrapassam a capacidade de controlar a coes\u00e3o pac\u00edfica grupal. A linguagem \u00e9 o maior sistema simb\u00f3lico na comunica\u00e7\u00e3o com os outros. A data de aparecimento da fala \u00e9 muito controversa (n\u00e3o tanto da linguagem). Certos investigadores atribuem a emiss\u00e3o de sons com algum significado, por volta de 1,7 milh\u00f5es de anos, com o Homo mais arcaico, coincidindo com a primeira migra\u00e7\u00e3o africana para a Eur\u00e1sia, s\u00f3 poss\u00edvel com uma capacita\u00e7\u00e3o da laringe, pulm\u00f5es e do diafragma, para permitirem sons mais complexos, permitindo o canto e, j\u00e1 aqui, com transmiss\u00e3o de sentimentos e um maior convencimento para as pr\u00e1ticas sexuais. Outros investigadores sinalizam o Homo sapiens primitivo, \u00e0 volta dos 300 000 anos. A linguagem, talvez, h\u00e1 40 000 anos com o Homo sapiens sapiens, mas ainda aqui, n\u00e3o h\u00e1 unanimidade entre diversos estudiosos da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Os chimpanz\u00e9s e os bonobos t\u00eam esp\u00edculas \u00e0 superf\u00edcie do p\u00e9nis, que s\u00e3o determinadas por genes e t\u00eam duas fun\u00e7\u00f5es; uma, \u00e9 aumentar a sensibilidade peniana tendo, como consequ\u00eancia, um tempo de lat\u00eancia ejaculat\u00f3ria de 5 a 7 segundos; a outra, diz respeito \u00e0 competi\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica, com uma capacidade de remover o esperma do outro rival, existente na vagina da parceira. O homem, ao longo da sua evolu\u00e7\u00e3o, perdeu esse gene e por consequ\u00eancia deixou de ter espinhas penianas, perdendo, parcialmente, a capacidade de remo\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica, at\u00e9 dele pr\u00f3prio, e devido a uma aparente diminui\u00e7\u00e3o da sensibilidade peniana, aumentou o tempo de lat\u00eancia ejaculat\u00f3ria. A linhagem hominini tamb\u00e9m perdeu o osso peniano (<em>baculum),<\/em> existente entre outros mam\u00edferos (nos chimpanz\u00e9s e bonobos), mas ganhou em aumento das dimens\u00f5es penianas, tendo, por\u00e9m, test\u00edculos menores; na passagem \u00e0 posi\u00e7\u00e3o b\u00edpede, tornou mais vis\u00edvel o seu p\u00e9nis, aumentando o foco er\u00f3tico para a mulher.<\/p>\n<p>Estudando os dois v\u00edrus do herpes \u2013 oral (HSV1) e o genital (HSV2) \u2013 e a sexualidade humana, os investigadores chegaram, por esta via, a uma conclus\u00e3o inimagin\u00e1vel: o sexo oral n\u00e3o deve ter sido praticado, de forma sistem\u00e1tica, pelos nossos ancestrais.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias opini\u00f5es sobre o tipo de emparelhamento humano ao longo da evolu\u00e7\u00e3o, tomando como termo comparativo a linhagem dos s\u00edmios. Mas ser\u00e1 o modelo de s\u00edmios, como chimpanz\u00e9s, gorilas ou s\u00edmios n\u00e3o actuais, uma boa refer\u00eancia para a sexualidade dos primeiros hominini? Uns consideram que h\u00e1 uma monogamia, outros, que h\u00e1 monogamia serial. Outros poliginia ligeira, excepto no caso da poliginia declarada dos Mormons e, n\u00e3o s\u00f3, como em Angola. E teremos de considerar a poliandria em casos muito minorit\u00e1rios. Pretende-se estabelecer que nos humanos o que prevalece \u00e9 a monogamia, que \u00e9 rara no reino animal; foi estudada a estrutura social de 2545 esp\u00e9cies de mam\u00edferos, das quais menos de 9% s\u00e3o socialmente monog\u00e2micas, sendo de 25% entre os primatas. Na maior parte dos outros 75% dos primatas funciona a figura do detentor de har\u00e9m, o macho mais elevado na hierarquia do grupo, que det\u00e9m o poder copulat\u00f3rio sobre as f\u00eameas. O detentor do har\u00e9m sofre dois tipos de contesta\u00e7\u00e3o: um, quando um outro macho lhe quer usurpar o lugar, dando direito a luta, e sangrenta; outro, quando as suas \u201cpupilas,\u201d de forma sub-rept\u00edcia resolvem dar sinais, a um ou mais dos outros membros masculinos do bando, que est\u00e3o receptivas a uma infidelidade, correndo ambos os riscos da sua condi\u00e7\u00e3o de \u201camantes\u201d, se o macho procriador se apercebe que, um macho inferior, est\u00e1 atentar subtrair uma das f\u00eameas ao seu poder. H\u00e1 o convencimento de que, o que det\u00e9m a capacidade de distribuir os seus genes, de qualidade, com o envelhecimento perder\u00e1 as suas capacidades atl\u00e9ticas de luta e inexoravelmente ser\u00e1 substitu\u00eddo por um outro mais jovem. Mas esta luta de substitui\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 de ser estimulada pelo har\u00e9m, que ter\u00e1 de dar sinais que encorajem o candidato a avan\u00e7ar para a luta.<\/p>\n<p>O per\u00edodo necess\u00e1rio para que as crias tenham condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia aut\u00f3noma, \u00e9 mais longo nos humanos do que nos s\u00edmios, devido \u00e0 neotenia; resumidamente, com o bipedismo houve altera\u00e7\u00f5es estruturais da bacia. Numa perspectiva evolucion\u00e1ria, as dimens\u00f5es do cr\u00e2nio teriam de ser menores para a passagem no canal do parto, havendo como que um atraso no desenvolvimento cerebral em rela\u00e7\u00e3o ao corpo e, cuja recupera\u00e7\u00e3o cerebral, ap\u00f3s o parto, levar\u00e1 cerca de 1 ano, para permitir uma prolifera\u00e7\u00e3o neuronal, assim como a plasticidade neuronal mais longa. Explicitando melhor, este crescimento cerebral \u00e9 feito mais \u00e0 custa das conex\u00f5es interneuronais, o conectoma, do que em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de c\u00e9lulas cerebrais. Esta recupera\u00e7\u00e3o corresponderia ao nascimento, se nos report\u00e1ssemos aos s\u00edmios ou ao nosso antepassado comum, e mais o tempo necess\u00e1rio, habitual, para, em condi\u00e7\u00f5es normais, ter defesas m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia, o que perfaz cerca de 4-5 anos. Nos s\u00edmios, as f\u00eameas d\u00e3o \u00e0 luz com intervalos de 5 a 8 anos, s\u00f3 regressando ao ciclo reprodutivo no fim do aleitamento, altura em que cessa a amenorreia devida aos valores elevados da prolactina. A protec\u00e7\u00e3o dos machos aos seus descendentes e o acesso r\u00e1pido \u00e0s f\u00eameas, em condi\u00e7\u00f5es de procriar, justifica a elevada frequ\u00eancia de infantic\u00eddios nos mam\u00edferos e, particularmente nos primatas, apontando-se para os gorilas, 30% dos rec\u00e9m-nascidos. Para os machos, a protec\u00e7\u00e3o do investimento do seu futuro gen\u00e9tico, adiciona uma press\u00e3o suplementar para a procura de uma f\u00eamea com disponibilidade procriadora, que se acelera com o infantic\u00eddio da sua cria. Tendo em conta a diferen\u00e7a de dimens\u00f5es do corpo, os custos energ\u00e9ticos da produ\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a s\u00e3o, nos humanos, 10% superiores aos dos chimpanz\u00e9s, atendendo \u00e0 diferen\u00e7a do volume cerebral.<\/p>\n<p>A passagem das f\u00eameas homininis ao bipedismo, exp\u00f4-las a maiores riscos, atendendo aos dimorfismos sexuais, que para se defenderem, passaram a trabalhar mais em grupo, nos trabalhos forrageiros; grupos maiores implicavam maior competi\u00e7\u00e3o, o que levou \u00e0 prov\u00e1vel utiliza\u00e7\u00e3o de ferramentas l\u00edticas para aumentar a colheita; trabalhando em grupo, estavam mais protegidas contra animais predadores ou machos intrusivos. A recente descoberta de pegadas de um homem e quatro mulheres, em cinza vulc\u00e2nica que rapidamente endureceu, refor\u00e7a a ideia da exist\u00eancia de poliginia no Australopithecus afarensis, h\u00e1 3,3 milh\u00f5es de anos. Os australopitec\u00ednios seriam mais polig\u00ednicos do que os do g\u00e9nero Homo, que enveredariam por uma poliginia ligeira. Nestas sociedades Homo de ca\u00e7adores-recolectores, havia uma divis\u00e3o de trabalho, com as mulheres dedicadas \u00e0 forragem e aos cuidados maternais e os homens a tenderem, na sua actividade de aprovisionamento familiar, a forragear produtos de mais dif\u00edcil recolha ou mais distantes do local de habita\u00e7\u00e3o e a ca\u00e7ar, onde existirem, animais de grande porte, o que implica pr\u00e1ticas associativas, ou pequenos animais; a partilha dos animais de ca\u00e7a, aumenta o estatuto dentro do grupo, proporcionando melhores oportunidades de acasalamento. As pr\u00e1ticas sexuais destas sociedades s\u00e3o mais recatadas, evitando-se assim o ci\u00fame sexual e a competi\u00e7\u00e3o de acasalamento, contrastante com o comportamento sexual dos s\u00edmios, como os orangotangos e gorilas, em que existe uma forte competi\u00e7\u00e3o masculina. Os machos dominantes copulam abertamente, at\u00e9 para sinalizarem o seu poder, enquanto os machos inferiores, s\u00e3o de tal maneira discretos, que os primatologistas n\u00e3o se aperceberam que eles \u201cdavam uma voltinha\u201d com as f\u00eameas do bando, s\u00f3 se apercebendo quando se fizeram determina\u00e7\u00f5es do ADN a todo o bando. O mesmo acontece numa sociedade, supostamente monog\u00e2mica como a nossa, em que 4% dos descendentes, t\u00eam um ADN diferente dos putativos pais. Os chimpanz\u00e9s s\u00e3o exog\u00e2micos femininos, numa percentagem de 90%. As f\u00eameas mudam-se para outros bandos, alguns distanciados centenas de quil\u00f3metros, demonstrados pelas an\u00e1lises de ADN mitocondrial (mtDNA).<\/p>\n<h4><em>Estudando os dois v\u00edrus do herpes \u2013 oral (HSV1) e o genital (HSV2) \u2013 e a sexualidade humana, os investigadores chegaram, por esta via, a uma conclus\u00e3o inimagin\u00e1vel: o sexo oral n\u00e3o deve ter sido praticado, de forma sistem\u00e1tica, pelos nossos ancestrais<\/em><\/h4>\n<p>Existem muitos modelos te\u00f3ricos socioecol\u00f3gicos para a compreens\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o da sexualidade dos homininis, que valorizam a protec\u00e7\u00e3o ou cuidados masculinos na forma\u00e7\u00e3o da vincula\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos Homo, os cuidados masculinos, no que ao aprovisionamento diz respeito, ao aumentar os factores energ\u00e9ticos alimentares, pode ter tido como contrapartida um sucesso reprodutivo mais longo da mulher e, ao homem, um acesso sexual, com vincula\u00e7\u00e3o, a longo termo. A escolha feminina para o acasalamento est\u00e1 orientada para a sua pr\u00f3pria protec\u00e7\u00e3o e da sua prole. As f\u00eameas de v\u00e1rias esp\u00e9cies, incluindo o Homo sapiens sapiens, procuram acasalar com machos que proporcionem complementaridade com o MHC (Complexo Major de Histocompatibilidade) ou bons genes (ex. alelos favor\u00e1veis \u00e0 neutraliza\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as infecciosas locais).<\/p>\n<p>Conflitos de interesses sexuais podem ser interessantes sob o ponto de vista da coer\u00e7\u00e3o sexual, numa perspectiva filog\u00e9nica e adaptativa. Os primatas terrestres podem ser mais propensos \u00e0 coer\u00e7\u00e3o sexual, porque o seu volume corporal (com 60% da massa muscular disposta na metade superior do corpo) favorece-os no combate corpo a corpo, em rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, aos s\u00edmios arbor\u00edcolas. Portanto, o s\u00edmio terrestre, devido a esta condi\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica, tender\u00e1 a exercer coer\u00e7\u00e3o sexual sobre as f\u00eameas, mais os chimpanz\u00e9s que os bonobos. Esta capacidade de luta macho-macho, integra a competi\u00e7\u00e3o intrassexual e pode resultar em comportamentos coercivos sobre a f\u00eamea. Esta condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica e capacidade de luta pode ser um factor de aceitabilidade do acasalamento, por parte da f\u00eamea, mas tamb\u00e9m pode ser um factor de rejei\u00e7\u00e3o, exactamente pelo temor de que essa for\u00e7a possa ser um factor de coer\u00e7\u00e3o sobre si. De qualquer modo, as escolhas ancestrais femininas condicionam a evolu\u00e7\u00e3o do comportamento humano. A escolha no acasalamento foi-se tornando mais exigente, com a aprendizagem de compet\u00eancias como cantar, ca\u00e7ar e pintar, pap\u00e9is cada vez mais importantes na atrac\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A competi\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica resulta da copula\u00e7\u00e3o de uma f\u00eamea com mais do que um macho. A f\u00eamea pretende os melhores espermatozoides para a fecunda\u00e7\u00e3o do seu \u00f3vulo, visando uma gravidez vi\u00e1vel e uma cria saud\u00e1vel. O macho pretende disseminar os seus genes e, se assumir a fun\u00e7\u00e3o de cuidador, quer ter a certeza de que a cria \u00e9 sua. As inten\u00e7\u00f5es procriativas podem n\u00e3o ser concili\u00e1veis, e estamos perante um conflito sexual de interesses, interesses dos machos diferentes dos interesses das f\u00eameas. Para aceder \u00e0 f\u00eamea, haver\u00e1 previamente uma competi\u00e7\u00e3o intrassexual, de intensidade vari\u00e1vel, competi\u00e7\u00e3o esta, pr\u00e9-copulat\u00f3ria.<\/p>\n<p>A p\u00f3s-copulat\u00f3ria desenvolve-se dentro da vagina, podendo a mulher, ela pr\u00f3pria, fazer a sele\u00e7\u00e3o dos espermatozoides que lhe interessam, independentemente da competi\u00e7\u00e3o intravaginal dos machos. Os machos, um ou mais, v\u00e3o tentar fazer a remo\u00e7\u00e3o dos espermatozoides existentes, a\u00ed depositados por c\u00f3pulas anteriores. Como foi descrito, os s\u00edmios disp\u00f5em de esp\u00edculas \u00e0 superf\u00edcie da pele do p\u00e9nis, que ajudam a esta remo\u00e7\u00e3o, mas os homin\u00eddeos, apesar da perda dessas esp\u00edculas, possuem ainda alguma capacidade para entrar nesta competi\u00e7\u00e3o, dependente da forma do p\u00e9nis, constitu\u00eddo pela glande e pelo corpo e, nesta jun\u00e7\u00e3o, o colo; a glande tem uma forma de um pequeno cogumelo, com um alargamento progressivo da sua extremidade, o meato urin\u00e1rio, at\u00e9 \u00e0 sua base, forma que permite uma melhor introdu\u00e7\u00e3o; na jun\u00e7\u00e3o da glande com o corpo, existe uma pequena diferen\u00e7a de di\u00e2metros, formando um pequeno recesso circular que, junto com a inser\u00e7\u00e3o do prep\u00facio, pode criar condi\u00e7\u00f5es para a poss\u00edvel remo\u00e7\u00e3o de espermatozoides, depositados por outrem. Esta competi\u00e7\u00e3o est\u00e1 dependente do n\u00famero de competidores e da organiza\u00e7\u00e3o social do grupo. Os gorilas s\u00e3o pouco prom\u00edscuos, s\u00f3 o macho dominante com posse de har\u00e9m acasala com as f\u00eameas. T\u00eam test\u00edculos relativamente pequenos. J\u00e1 os bonobos e chimpanz\u00e9s, vivendo em grandes grupos de multi-machos e multi-f\u00eameas, s\u00e3o prom\u00edscuos, t\u00eam os test\u00edculos proporcionalmente maiores, em rela\u00e7\u00e3o ao corpo, para poderem produzir maiores quantidades de espermatozoides. Os homin\u00eddeos, monog\u00e2micos ou polig\u00ednicos ligeiros, t\u00eam test\u00edculos de dimens\u00f5es interm\u00e9dias \u2013 entre os gorilas e os chimpanz\u00e9s, volume do ejaculado baixo e qualidade esperm\u00e1tica tamb\u00e9m baixa. As f\u00eameas da linhagem homin\u00eddea, t\u00eam trompas de Fal\u00f3pio relativamente curtas, consistentes com uma baixa press\u00e3o de competi\u00e7\u00e3o esperm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Utilizando a citogen\u00e9tica, a partir dos nucl\u00e9olos, foi poss\u00edvel determinar as escolhas reprodutivas. O nucl\u00e9olo est\u00e1 situado no n\u00facleo das c\u00e9lulas eucariotas, cont\u00e9m o \u00e1cido ribonucleico (ARN), assim como uma parte de ADN, e prote\u00edna para s\u00edntese de ARN ribos\u00f3mico, ligado, principalmente, \u00e0 condu\u00e7\u00e3o do processo reprodutivo. A diferen\u00e7a do nucl\u00e9olo quando \u00e9 \u00fanico (pode haver dois ou mais, entre chimpanz\u00e9s e humanos) \u00e9 de 1,23% (35 milh\u00f5es de pares de bases), dos quais 1,06% corresponde a diverg\u00eancia fixa entre as esp\u00e9cies. No cromossoma Y \u00e9 maior (1,9%) do que no cromossoma X (que \u00e9 0,94%). A taxa de muta\u00e7\u00e3o masculina \u00e9 3 a 6 vezes superior \u00e0 feminina. Isto indica que h\u00e1 necessidade, por parte da mulher (englobando todos os homininis, incluindo os humanos actuais) de fazer uma boa escolha reprodutiva.<\/p>\n<p>As liga\u00e7\u00f5es emocionais enfraquecem, ou extinguem-se mesmo, dando aso a que os acasalamentos se desfa\u00e7am; por exemplo, numa sociedade de ca\u00e7adores-recolectores, os Ache do Paraguai t\u00eam, em m\u00e9dia, doze parceiros ao longo da sua vida, com vincula\u00e7\u00f5es que oscilam entre alguns meses a v\u00e1rios anos.<\/p>\n<p>As bases heredit\u00e1rias dos homin\u00eddeos evidenciam mudan\u00e7as para vincula\u00e7\u00e3o a longo prazo, monogamia, com poliginia ligeira, ou a monogamia serial, reproduzindo homologias com outras esp\u00e9cies com vincula\u00e7\u00e3o a longo prazo e fazendo por vezes, uma clara distin\u00e7\u00e3o entre vincula\u00e7\u00e3o e actividade sexual.<\/p>\n<p>O amor rom\u00e2ntico \u00e9 distinto da excita\u00e7\u00e3o sexual e das emo\u00e7\u00f5es. O amor rom\u00e2ntico est\u00e1 mais relacionado com a recompensa do que com uma emo\u00e7\u00e3o. A \u00e1rea tegmental ventral, tem um papel primordial no c\u00e9rebro dos mam\u00edferos, nos processos de recompensa e motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O amor a longo prazo, mostra localiza\u00e7\u00e3o na \u00e1rea tegmental ventral e n\u00facleo caudato, regi\u00f5es estas, relacionadas com a reprodu\u00e7\u00e3o, comportamento social e amor rom\u00e2ntico. H\u00e1 um aumento de actividade nas regi\u00f5es ricas em dopamina, associadas \u00e0 recompensa e motiva\u00e7\u00e3o, particularmente na \u00e1rea tegmental ventral na regi\u00e3o mesol\u00edmbica.<\/p>\n<p>A activa\u00e7\u00e3o de estruturas cerebrais no amor recente, \u00e9 sobrepon\u00edvel \u00e0 do amor rom\u00e2ntico a longo prazo, no que concerne ao sistema de recompensa e motiva\u00e7\u00e3o mas, no longo prazo, est\u00e3o activadas mais algumas regi\u00f5es, com outro significado; h\u00e1 um aumento da vincula\u00e7\u00e3o, com uma activa\u00e7\u00e3o do t\u00e1lamo e globo p\u00e1lido, onde existe uma elevada densidade de receptores para a oxitocina e vasopressina, provocando uma maior tranquilidade na rela\u00e7\u00e3o, porque menor ansiedade e obsess\u00e3o devido ao recrutamento dos neur\u00f3nios serotonin\u00e9rgicos e opi\u00f3ides como acontece no globo p\u00e1lido. A activa\u00e7\u00e3o de estruturas de vincula\u00e7\u00e3o entre humanos \u00e9 sobrepon\u00edvel \u00e0 liga\u00e7\u00e3o entre roedores, especialmente a n\u00edvel do globo p\u00e1lido. Existe um modelo biol\u00f3gico dual, para o desejo sexual e para o amor numa perspectiva do padr\u00e3o evolucion\u00e1rio posterior \u2192 anterior. A \u00ednsula est\u00e1 relacionada com hormonas ester\u00f3ides na sua por\u00e7\u00e3o posterior e \u00e9 activada para o desejo sexual e, a parte anterior para o amor. J\u00e1 a \u00e1rea tegmental ventral e estriado dorsal, est\u00e3o relacionadas com os sistemas opi\u00f3ide e dopamin\u00e9rgico em conson\u00e2ncia com a recompensa e o amor. Dito de outra maneira, a parte posterior est\u00e1 relacionada com o instinto, enquanto a parte anterior e tamb\u00e9m o c\u00f3rtex fontal est\u00e3o relacionados com o sistema de recompensa, logo com comportamentos aprendidos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Toda a Arte \u00e9 uma forma de literatura, porque toda a Arte \u00e9 dizer qualquer coisa (\u00c1lvaro de Campos<\/strong>)<\/p>\n<p>A Arte substitui a escrita na sua aus\u00eancia e \u201ca esp\u00e9cie humana \u00e9, pela sua natureza, art\u00edstica, e a hist\u00f3ria da Arte inicia-se com a humanidade\u201d (Lorblanchet, 2007). Logo, desde a sua origem, o Homem \u00e9, em todos os sentidos do termo, um <em>Homo Aestheticus. <\/em>O aparecimento da escrita verificou-se entre 4 000 e 3 000 aC, funcionando como linha de fronteira entre a Pr\u00e9-hist\u00f3ria e a Hist\u00f3ria, sendo esta \u00faltima que vamos abordar. O fim da Pr\u00e9-hist\u00f3ria n\u00e3o foi simult\u00e2neo nos v\u00e1rios continentes, s\u00f3 acabando na \u00c1frica Central, Am\u00e9ricas e Austr\u00e1lia na era dos Descobrimentos, quando os europeus entraram em contacto com as popula\u00e7\u00f5es locais, estabelecendo a primeira globaliza\u00e7\u00e3o mundial, subsistindo, por\u00e9m, algumas bolsas populacionais, que foram sendo eliminadas progressivamente, muitas vezes fisicamente, pensando nos \u00edndios da Amaz\u00f3nia e de popula\u00e7\u00f5es polin\u00e9sicas.<\/p>\n<p>A primeira escrita foi desenvolvida pelos sum\u00e9rios, na Mesopot\u00e2mia. Apareceu h\u00e1 cerca de 3 000 anos aC. Era cuneiforme, com alguns historiadores a recu\u00e1-la para os 4 000 anos aC, havendo anteriormente simulacros de escrita. Nasceu por necessidades comerciais e pelo desenvolvimento agr\u00edcola, estendendo-se posteriormente a ramos cient\u00edficos, Astronomia, e culturais, Literatura, Poesia, e Direito (o C\u00f3digo de Hammurabi, na Babil\u00f3nia), seguindo-se os hier\u00f3glifos no Egipto, com uma not\u00e1vel conota\u00e7\u00e3o art\u00edstica, e os alfabetos fen\u00edcio, grego e romano.<\/p>\n<p>O alfabeto fen\u00edcio, considerado a origem dos alfabetos actuais, foi criado no s\u00e9c. XII aC, expandindo-se pelo Mediterr\u00e2neo e M\u00e9dio Oriente. A escrita chinesa surgiu cerca de1500 anos aC, ideogr\u00e1fica, tamb\u00e9m com conota\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, inspiradora de alguns pintores contempor\u00e2neos, como exemplo, um pintor portugu\u00eas, Eurico Gon\u00e7alves, com as suas caligrafias\/pintura-escrita, gestualistas, inspiradas no Budismo Zen.<\/p>\n<h4><em>A recente descoberta de pegadas de um homem e quatro mulheres, em cinza vulc\u00e2nica que rapidamente endureceu, refor\u00e7a a ideia da exist\u00eancia de poliginia no Australopithecus afarensis, h\u00e1 3,3 milh\u00f5es de anos<\/em><\/h4>\n<p>Considera-se que \u201coficialmente\u201d a Arte ter\u00e1 nascido com o <em>Homo Sapiens Sapiens, <\/em>o Homem moderno, isto \u00e9, h\u00e1 cerca de 40 000 anos; estas linhas separadoras acabam por ser aleat\u00f3rias, quer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Arte quer em rela\u00e7\u00e3o ao <em>Homo sapiens sapiens<\/em> mas, convenhamos, necess\u00e1rias. Seria importante, ao fazer o balizamento temporal do que \u00e9 a Arte, defini-la, mas qu\u00e3o dif\u00edcil isso \u00e9. J\u00e1 referi qual a data de nascimento que lhe \u00e9 atribu\u00edda; local Europa Central, fruto de uma transforma\u00e7\u00e3o substancial da cogni\u00e7\u00e3o humana, consequ\u00eancia de altera\u00e7\u00f5es neuronais que a suportam, provocadas por uma prov\u00e1vel muta\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que deu origem ao <em>Homo sapiens sapiens.<\/em> Outros investigadores mant\u00eam a data de aparecimento da Arte mas, descartam uma correspond\u00eancia directa com o aparecimento do Homem moderno. Apontam sim, para uma natural evolu\u00e7\u00e3o gradual com atribui\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas, desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos, organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social mais estruturados, e com modelos resultantes de diferentes culturas com sistemas art\u00edsticos e culturais pr\u00f3prios, existentes em diferentes \u00e9pocas e regi\u00f5es.<\/p>\n<p>O arque\u00f3logo portugu\u00eas Jo\u00e3o Zilh\u00e3o (2009), atribui as origens da Arte ao \u201c\u2026valor adaptativo do aparecimento de comportamentos cerimoniais relacionados com a propriedade e os direitos sobre os recursos, do desenvolvimento com mitos e sistemas de cren\u00e7as religiosas com antepassados reais ou m\u00edticos, e n\u00e3o numa muta\u00e7\u00e3o tardia habilitando os homens com a capacidade de pensamento simb\u00f3lico.\u201d A experiencia\u00e7\u00e3o da Arte \u00e9 complexa e resulta de diversos processos interdependentes englobando a percep\u00e7\u00e3o, cogni\u00e7\u00e3o e afectos. \u00c9, fundamentalmente, comunica\u00e7\u00e3o estabelecida atrav\u00e9s de c\u00f3digos criados pelo homem, com valores est\u00e9ticos, incluindo conceitos de beleza humanos, flutuantes com o tempo e com cada cultura.<\/p>\n<p>Recuemos no tempo. O primeiro artefacto conhecido com laivos de Arte \u00e9 uma chamada pedra-figura de jasparite, encontrada na actual \u00c1frica do Sul. Deve ter alguma interven\u00e7\u00e3o humana, o que define o artefacto, aperfei\u00e7oando, de modo incontest\u00e1vel, os contornos de uma pedra, semelhando a algo. Esta pedra-figura, encontrada em Makangost, representa um rosto humanoide, foi trabalhada por um australopitec\u00edneo, no Paleol\u00edtico Inferior, resumindo, tem tr\u00eas milh\u00f5es de anos. Foram encontradas, em Israel, tr\u00eas pedras-figuras, a que foi atribu\u00edda uma data\u00e7\u00e3o de 280 000 a 250 000 anos, tamb\u00e9m Paleol\u00edtico Inferior, trabalho de <em>Homo sapiens primitivo. <\/em>As tr\u00eas pedras-figuras eram de mat\u00e9ria vulc\u00e2nica, tinham 3,5 cm de altura e 2,5 de largura, e representavam mulheres obesas. Os investigadores n\u00e3o tiveram qualquer d\u00favida em classific\u00e1-las de pedras-figuras, ao fazer exames microsc\u00f3picos \u00e0s pe\u00e7as e verificarem que havia sinais bem evidentes de raspagens no peito, ombros, pesco\u00e7o e bra\u00e7os. Com outro tipo de interven\u00e7\u00e3o foi encontrada, na \u00cdndia, com data\u00e7\u00e3o de 200 000 anos, uma pedra com as chamadas c\u00fapulas. As c\u00fapulas s\u00e3o pequenas cavidades com poucos cent\u00edmetros de di\u00e2metro e um ou dois cent\u00edmetros de profundidade, produzidas ou pelo <em>Homo sapiens primitivo<\/em> ou pelos neandertais, e consideradas como primeiras manifesta\u00e7\u00f5es de Arte Rupestre no Mundo, manifesta\u00e7\u00f5es estas, que se prolongaram pelos Paleol\u00edticos M\u00e9dio e Superior, como simb\u00f3licas ou rituais.<\/p>\n<p>Os pigmentos vermelhos s\u00e3o utilizados desde h\u00e1 cerca de milh\u00e3o e meio de anos, iniciando-se com o <em>Homo Habilis.<\/em> A utiliza\u00e7\u00e3o do vermelho, a que se pode atribuir uma prefer\u00eancia quase geral, e que alguns dizem ser de causa gen\u00e9tica, e cuja utiliza\u00e7\u00e3o, ao longo do tempo, poder\u00e1 estar relacionada com o desenvolvimento cognitivo e simb\u00f3lico. Os pigmentos eram, inicialmente, utilizados para embelezamento corporal, em si, ou como sinal de estratifica\u00e7\u00e3o social e mais tarde em eventuais pinturas rupestres, entretanto desaparecidas, devido \u00e0 qualidade das misturas pigmentares com fraca ader\u00eancia duradoura \u00e0s paredes rochosas e tamb\u00e9m ao longo tempo mediando entre a sua execu\u00e7\u00e3o e os nossos dias. Na Europa Ocidental, h\u00e1 cerca de 130 000 anos, o <em>Homo sapiens arcaico tardio<\/em> desenvolveu novas tecnologias, com algum grau de sofistica\u00e7\u00e3o, utilizando trituradores, m\u00f3s e p\u00e1s de v\u00e1rios materiais e, na sequ\u00eancia temporal, diversificaram o leque de pigmentos.<\/p>\n<p>Considerando ainda os colares, como materiais de embelezamento ou adornos e como manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, a sua utiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 situada, pelos arque\u00f3logos, h\u00e1 pelo menos 300 000 anos (Paleol\u00edtico M\u00e9dio) pelos <em>Homo sapiens primitivo <\/em>e <em>Homo neanderthalensis, <\/em>podendo ser usados sobre a pele ou sobre vestu\u00e1rio. Foram encontradas na \u00c1frica do Sul, com 85 000 a 75 000 anos, pequenas conchas perfuradas e frequentemente pintadas, recolhidas nas praias ou nas margens dos rios, que encordoadas poderiam constituir colares. Os Cro-Magnons, existiram entre os 35 000 e 10 000 anos, pertencentes aos homens modernos, foram grandes fabricantes de colares e pendentes.<\/p>\n<p>O corpo ao perder p\u00ealo, ficou com uma \u00e1rea dispon\u00edvel para o seu embelezamento com pinturas corporais. O uso de adornos como ossos e dentes de animais, era muito comum entre os neandertais.<\/p>\n<p>As pinturas, os adornos, o uso de cosm\u00e9ticos vegetais a serem aplicados sobre os cabelos e p\u00ealos restantes serviam para aumentar a atractividade sexual. Outro modo de embelezamento s\u00e3o as escarifica\u00e7\u00f5es cut\u00e2neas, que tive a oportunidade de ver pessoalmente, quando da minha passagem por \u00c1frica, formando como que rendilhados de elevado pendor est\u00e9tico e que nos tempos paleol\u00edticos podiam estar ligados a cerimoniais ou marcas de ritos de passagem.<\/p>\n<p>Pedras com estrias, tamb\u00e9m chamadas grava\u00e7\u00f5es, com data\u00e7\u00e3o de 380 000 anos (Paleol\u00edtico Inferior), obra do <em>Homo erectus\/Homo habilis <\/em>foram encontradas em \u00c1frica e na Europa. No Paleol\u00edtico M\u00e9dio, entre 100 000 e 40 000 anos, com o <em>Homo sapiens arcaico tardio, <\/em>estas pedras aparecem com maior frequ\u00eancia na Europa. H\u00e1 um maior n\u00famero de ossos com incis\u00f5es que eram intencionais, portanto decorativas, ou eram o resultado da descarna\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as corporais de animais feitas com utens\u00edlios l\u00edticos cortantes utilizados para esse efeito, ou a descarna\u00e7\u00e3o refei\u00e7oeira feita com os dentes dos <em>Homos arcaicos <\/em>ou, ainda, feita pelos dentes dos animais carn\u00edvoros? Aqui fazia jeito o Or\u00e1culo de Delfos \u201cinverso\u201d.<\/p>\n<p>Ainda em \u00c1frica, na c\u00e9lebre gruta de Blombos, foram encontradas casca de ovos de avestruz com uma data\u00e7\u00e3o de cerca 60 000 anos, com linhas geom\u00e9tricas cruzadas. Pensa-se que as cascas de ovo com uma forma mais adequada a recipiente eram aproveitadas para moer os pigmentos. Pensam os especialistas nestas mat\u00e9rias que as grava\u00e7\u00f5es ou incis\u00f5es indiciam uma partilha de representa\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas.<\/p>\n<h4><em>Estas estatuetas ou V\u00e9nus caracterizam-se por serem port\u00e1teis e de pequenas dimens\u00f5es, situando-se a maioria entre os 12-15 cm. \u00c9 muito comum, a ideia, que estas representa\u00e7\u00f5es v\u00e3o todas no sentido de mulheres obesas. As representa\u00e7\u00f5es s\u00e3o variadas, elas s\u00e3o obesas, elas s\u00e3o magras, elas s\u00e3o de corpul\u00eancia m\u00e9dia. Algumas t\u00eam pe\u00e7as de vestu\u00e1rio. Os atributos sexuais est\u00e3o esculpidos com bastante detalhe<\/em><\/h4>\n<p>Depois destas descri\u00e7\u00f5es de que estive a falar? N\u00e3o foi de Arte? J\u00e1 disse que para a comunidade cient\u00edfica o marco miliar para a Arte s\u00e3o os 40 000 anos aC. Ora bem, tentando ultrapassar estas dificuldades, alguns, chamam-lhe, inteligentemente, a Arte antes da Arte.<\/p>\n<p>A Arte no Paleol\u00edtico Superior, na Europa, \u00e9 o resultado de uma acumula\u00e7\u00e3o lenta e abundante de tradi\u00e7\u00f5es culturais transmitidas e de compet\u00eancias associando-se a uma heran\u00e7a biol\u00f3gica. Uma das caracter\u00edsticas da Arte Paleol\u00edtica \u00e9 a exist\u00eancia de uma Arte escult\u00f3rica, com pe\u00e7as denominadas estatuetas, bast\u00f5es e grava\u00e7\u00f5es e baixos- relevos nas paredes rochosas. Ironicamente, a possibilidade de materializar a satisfa\u00e7\u00e3o de conceitos est\u00e9ticos\/mentais, resultaram da necessidade de melhorar os instrumentos cortantes para satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades biol\u00f3gicas relacionadas com a alimenta\u00e7\u00e3o carn\u00edvora. Durante o per\u00edodo Glaciar ou em zonas sazonais de gelo o descarnar de pe\u00e7as de carne geladas, implicava a exist\u00eancia de instrumentos, com gumes muito afiados e, a optimiza\u00e7\u00e3o da sua manipula\u00e7\u00e3o. E, assim, se passou da carne congelada para o trabalho com marfim, dentes, ossos, chifres, pedra de v\u00e1rias qualidades e argila utilizando raspadores, cinz\u00e9is, pequenos bifaces, pequenas l\u00e2minas curvas para a obten\u00e7\u00e3o de artefactos tais como estatuetas humanas e de animais, bast\u00f5es, colares, ponteiras, particularmente, na Europa Ocidental e Central.<\/p>\n<p>A g\u00e9nese e desenvolvimento da Arte tem como substracto, segundo uns, as emo\u00e7\u00f5es e os processos evolucion\u00e1rios envolvidos na recompensa, segundo outros, a categoriza\u00e7\u00e3o do controlo dos movimentos, outros ainda, a capacidade de criar imagens mentais. H\u00e1 uma evolu\u00e7\u00e3o paralela das t\u00e9cnicas l\u00edticas e da cogni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas da Arte do Paleol\u00edtico \u00e9 a exist\u00eancia de uma Arte escult\u00f3rica. A escultura \u00e9 considerada uma Arte visual mas, no entanto, ela \u00e9, fundamentalmente, t\u00e1ctil; vi escultores a apreciarem obras, de terceiros, a passearem a m\u00e3o por partes da escultura. Rodin, antes de come\u00e7ar a esculpir tinha de tocar, contornar o\/a modelo.<\/p>\n<p>Na Europa, o clima frio, especialmente durante o Per\u00edodo Glaciar, implicava a cobertura do corpo com peles. A explica\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia de estatuetas representando mulheres nuas, estaria no desejo da uma contempla\u00e7\u00e3o de um corpo nu. Estas estatuetas ou V\u00e9nus caracterizam-se por serem port\u00e1teis e de pequenas dimens\u00f5es, situando-se a maioria entre os 12-15 cm. \u00c9 muito comum, a ideia, que estas representa\u00e7\u00f5es v\u00e3o todas no sentido de mulheres obesas. As representa\u00e7\u00f5es s\u00e3o variadas, elas s\u00e3o obesas, elas s\u00e3o magras, elas s\u00e3o de corpul\u00eancia m\u00e9dia. Algumas t\u00eam pe\u00e7as de vestu\u00e1rio. Os atributos sexuais est\u00e3o esculpidos com bastante detalhe. A cabe\u00e7a \u00e9 pequena, algumas vezes muito pequena, n\u00e3o tem rosto ou o rosto n\u00e3o est\u00e1 definido. Os membros s\u00e3o pequenos e mal definidos, n\u00e3o t\u00eam p\u00e9s ou s\u00e3o muito pequenos. T\u00eam grandes mamas e n\u00e1degas, que ser\u00e3o as partes eroticamente mais atractivas. As grandes n\u00e1degas suscitam a d\u00favida se correspondem a uma idealiza\u00e7\u00e3o ou a uma realidade, na sequ\u00eancia das migra\u00e7\u00f5es africanas, lembramos a exist\u00eancia actual de uma incr\u00edvel esteatopigia nas mulheres das tribos Hotentotes ou Busquimanos. Em It\u00e1lia, nas grutas de Grimaldi, foi encontrada uma estatueta com data\u00e7\u00e3o de 20 000 aC, com cerca de 8,1 cm de altura, em esteatite verde escura, cuja fotografia d\u00e1, perfeitamente, a ideia de se tratar de uma negra. Efectivamente, aqueles povos imigraram para ali em 45 000 aC.<\/p>\n<p>Karel Absolon (1949) afirmou, com alguma ironia, que \u201co sexo e a fome s\u00e3o os dois motivos que influenciam a vida mental dos ca\u00e7adores de mamutes e a sua produtividade art\u00edstica\u201d. As estatuetas de V\u00e9nus s\u00e3o port\u00e1teis e s\u00e3o um objecto sexual com a finalidade de proporcionar uma ajuda estimulat\u00f3ria, voyerista, para a masturba\u00e7\u00e3o, quando tinham de se afastar do acampamento ou grutas, durante dias, para ca\u00e7ar mamutes ou outos animais de grande porte. Outros v\u00eam nelas representa\u00e7\u00f5es de deusas, particularmente, a da fertilidade.<\/p>\n<p>A mais popularizada estatueta de V\u00e9nus ser\u00e1, provavelmente, a de Willendorf, uma das duzentas encontradas at\u00e9 hoje, e produzidas no Per\u00edodo Glaciar europeu, entre 27 000 e 22 000 aC; esta foi encontrada na \u00c1ustria, com data\u00e7\u00e3o de 24 000 aC, trabalhada em pedra calc\u00e1ria, com 10,4 cm de altura. As m\u00e3os pequenas repousam sobre umas volumosas mamas, pressupondo que, toda ela est\u00e1 bem fornida de gordura, com ventre e n\u00e1degas volumosas. Gordura como reserva para a gesta\u00e7\u00e3o e lacta\u00e7\u00e3o? O que chama imediatamente a aten\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m da sua volumetria corporal, s\u00e3o as dimens\u00f5es da cabe\u00e7a, muito maiores do que \u00e9 t\u00edpico destas esculturas, aus\u00eancia de rosto, essa habitual, e um complicado penteado com trancinhas, envolvendo toda a sua cabe\u00e7a, questionando-me como era poss\u00edvel fazer tal arranjo capilar, pura ilus\u00e3o de \u00f3ptica, desaten\u00e7\u00e3o e ignor\u00e2ncia, mas, pior que eu, foram os estudiosos, que n\u00e3o resolveram o mist\u00e9rio. S\u00f3 h\u00e1 relativamente pouco tempo o problema foi resolvido; Afinal n\u00e3o era cabelo. Trata-se sim, de um gorro de elabora\u00e7\u00e3o extremamente minuciosa, feito \u00e0 m\u00e3o, que se vai desenvolvendo do centro para a periferia, em espiral, deixando-nos outra perplexidade. A min\u00facia \u00e9 tal, que nos faz crer que o tempo despendido na sua elabora\u00e7\u00e3o deve ter sido maior do que com o resto da escultura. Espantem-se, mais uma especula\u00e7\u00e3o que faz algum caminho: tratar-se-ia de um modelo para os tecel\u00f5es que confeccionavam gorros. Os gorros poderiam ser uma sinaliza\u00e7\u00e3o de estatuto na sua comunidade. Voltando \u00e0 estatueta em si, h\u00e1 uma vulva nitidamente esculpida, que aquando da sua descoberta se encontrava com vest\u00edgios de pigmentos vermelhos, e tamb\u00e9m pelo corpo.<\/p>\n<p>Outra curiosa estatueta, em marfim de mamute, encontrada em Kostenki, R\u00fassia, margens do rio Don, por isso denominada V\u00e9nus de Kostenki, com data\u00e7\u00e3o de 23 000 aC, observada por investigadores de ambos os g\u00e9neros, t\u00e3o embrenhados estavam nas hip\u00f3teses de objecto sexual de deusa, particularmente da fecundidade, que n\u00e3o repararam que estavam esculpidas partes de vestu\u00e1rio. Vendo-a pela parte dorsal, h\u00e1 a n\u00edtida exist\u00eancia de uma esp\u00e9cie de corda, mais larga que um simples cord\u00e3o, com a disposi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de um soutien, enquanto anteriormente, dando continuidade ao que \u00e9 visto posteriormente, as cordas descem, de um lado e outro, do pesco\u00e7o, em V, e v\u00e3o ligar-se ao prolongamento horizontal da parte posterior, s\u00f3 que, ao contr\u00e1rio do seria espect\u00e1vel, passam sobre as volumosas mamas empurrando-as para baixo, e acentuando o seu volume. Em Angola, nas popula\u00e7\u00f5es rurais, a mudan\u00e7a de h\u00e1bitos vestu\u00e1rios com a cobertura total da nudez, o sistema de amarra\u00e7\u00e3o dos panos \u00e0 frente, cria como que um enfaixamento das mamas, empurrando-as para baixo e exauridas pela subnutri\u00e7\u00e3o e com lacta\u00e7\u00f5es prolongadas e sucessivas torna-as pendentes, compridas e com uma espessura de poucos cent\u00edmetros. A cabe\u00e7a segue o padr\u00e3o mais comum, aus\u00eancia de rosto e um gorro pormenorizadamente esculpido, semelhante \u00e0 de Willendorf, separadas por 1 000 anos e por 2000 km.<\/p>\n<p>Em Kostenki, s\u00edtio arqueol\u00f3gico extremamente rico, foi descoberta uma, denominada V\u00e9nus amarrada, muito mutilada, restando apenas a parte inferior do corpo, de pedra calc\u00e1ria, e possivelmente da mesma \u00e9poca que a anterior. Restam, dos membros superiores, um, quase completo e, do outro, uma m\u00e3o; ambas as m\u00e3os repousam sobre um ventre arredondado, As m\u00e3os est\u00e3o amarradas entre si, por aquilo que me parece, uma corda, exactamente igual \u00e0 da sua conterr\u00e2nea. A interpreta\u00e7\u00e3o dos especialistas \u00e9 o de que a escultura pode indiciar uma submiss\u00e3o, um ritual de passagem, um cativeiro, uma escravid\u00e3o fruto de uma escaramu\u00e7a com uma tribo rival, um castigo da pr\u00f3pria tribo, ou um castigo dentro de um acasalamento polig\u00ednico. De qualquer modo, quer esta, quer a anterior, t\u00eam conota\u00e7\u00f5es sexuais e todas as representa\u00e7\u00f5es escult\u00f3ricas est\u00e3o dependentes da cultura sexual dos seus artes\u00e3os.<\/p>\n<p>Outra das mais citadas V\u00e9nus \u00e9 a de Lespugue (Fran\u00e7a, 23 000 aC), de marfim de mamute com a altura de 14,5 cm. Apresenta uma forma los\u00e2nguica, cabe\u00e7a min\u00fascula com rosto n\u00e3o trabalhado, mamas enormes e esteatopigia, seguindo os c\u00e2nones destas estatuetas mas, o que impressiona vivamente, com o olhar actual, \u00e9 o seu estilo modernista absolutamente admir\u00e1vel.<\/p>\n<h4><em>Os machos dominantes copulam abertamente, at\u00e9 para sinalizarem o seu poder, enquanto os machos inferiores, s\u00e3o de tal maneira discretos, que os primatologistas n\u00e3o se aperceberam que eles \u201cdavam uma voltinha\u201d com as f\u00eameas do bando, s\u00f3 se apercebendo quando se fizeram determina\u00e7\u00f5es do ADN a todo o bando. O mesmo acontece numa sociedade, supostamente monog\u00e2mica como a nossa, em que 4% dos descendentes, t\u00eam um ADN diferente dos putativos pais<\/em><\/h4>\n<p>A grande maioria destas representa\u00e7\u00f5es femininas apresenta ancas largas e mamas grandes, morfologia adequada para uma reprodu\u00e7\u00e3o de sucesso, arqu\u00e9tipo inconsciente, ainda hoje presente, na escolha de uma parceira, por parte de um homem. Esta prov\u00e1vel idea\u00e7\u00e3o de mulher atractiva, ser\u00e1 mais incisiva a n\u00edvel da cintura p\u00e9lvica. As mamas grandes n\u00e3o eram assumidas como ideal de beleza no Egipto e na Gr\u00e9cia antigos. Mas mant\u00e9m-se, ainda hoje, nos Estados Unidos, com os exemplos de dois \u00edcones \u2013 Marilyn Monroe e Jayne Mansfield \u2013 consideradas nos anos 1950 e 1960 s\u00edmbolos sexuais, que passaram, nuas, na capa da revista Playboy, sendo a \u00faltima cognominada de \u201cLoura [platinada] explosiva\u201d. H\u00e1 que dizer que o ideal de mulher tem a ver mais com modas do que com modelos culturais. E que nos Estados Unidos este ideal tem sofrido altera\u00e7\u00f5es, facilmente verific\u00e1veis, quer visualmente quer com mais rigor, nos registos antropom\u00e9tricos, das artistas de cinema, das concorrentes a t\u00edtulos de beleza e, por exemplo, nas revistas <em>Playboy<\/em> e <em>Hustler<\/em>.<\/p>\n<p>Timoty Taylor (1996) ensaia uma s\u00e9rie de teorias explicativas para a exist\u00eancia de estatuetas de V\u00e9nus, a saber: Exist\u00eancia epocal do matriarcado, no entanto, tamb\u00e9m se pensa que existia poliginia nesta \u00e9poca; fertilidade humana, no entanto, n\u00e3o h\u00e1 representa\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as, como por exemplo, crian\u00e7as ao colo ou partos; sacerdotisas xam\u00e2nicas, estas figuras representativas, estariam presentes em rituais sexuais, partilhados por toda a comunidade, colocando-se assim uma hip\u00f3tese para a exist\u00eancia das grutas, com a presen\u00e7a do gravado e do pict\u00f3rico, como lugares sagrados; objectos sexuais, transport\u00e1veis, com potenciais de ajuda er\u00f3tica; modelos para tecel\u00f5es (particularmente fabricantes de gorros), tendo como exemplos a de Willendorf, de Kostenki e outras; imagens religiosas, representa\u00e7\u00f5es da deusa suprema, na Europa, a Grande Deusa M\u00e3e (V\u00e9nus de Willendorf). E, ainda, poder\u00edamos juntar uma outra hip\u00f3tese, a da autorrepresenta\u00e7\u00e3o de artistas femininas.<\/p>\n<p>Mais uma estatueta de dif\u00edcil interpreta\u00e7\u00e3o, foi descoberta nas grutas de Grimaldi, em It\u00e1lia, esculpida no Paleol\u00edtico Superior, em esteatite, de cor verde, transl\u00facida, com uma altura de 8,1cm, e conhecida como o Hermafrodita de Grimaldi. A estatueta tem algumas mutila\u00e7\u00f5es, falta-lhe a cabe\u00e7a, dos membros superiores restam umas m\u00e3os que aparecem ao n\u00edvel dos genitais, parecendo cobri-los parcialmente com um p\u00e9nis pouco definido que lhe conferia o diagn\u00f3stico de hermafrodita. O que vem complicar esta interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia de um segundo par de m\u00e3os que parecem vir da parte posterior do corpo e parecem introduzir um objecto na vagina, muito provavelmente um dildo, logo a atribui\u00e7\u00e3o do sexo feminino, parecer mais plaus\u00edvel. Ambas as interpreta\u00e7\u00f5es levantam d\u00favidas. Mas, observando a fotografia com aten\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o levar mais longe as d\u00favidas e especular com a exist\u00eancia de uma dupla masturba\u00e7\u00e3o, peniana pelo pr\u00f3prio, e vaginal por terceiros? O Or\u00e1culo de Delfos \u201cinverso\u201d bem podia dar aqui uma ajuda.<\/p>\n<p>Foi descoberta na Turquia, uma escultura, em argila, com cerca de 12,5 cm, muito desgastada pela usura do tempo, com uma data\u00e7\u00e3o de 6 500 a 5 700 aC, e que seria a representa\u00e7\u00e3o da Grande Deusa M\u00e3e ou a M\u00e3e Terra. Esta sim, parece relacionada com a procria\u00e7\u00e3o e, tamb\u00e9m, referida como entidade suprema. A figura central \u00e9 feminina e est\u00e1 sentada. \u00c9 descrita como estando ladeada por dois felinos, a minha interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 que est\u00e1 sentada num trono, como admitido por alguns autores, cujos bra\u00e7os terminam com a escultura da cabe\u00e7a de felinos. Tem o rosto definido, est\u00e1 vestida e com as mamas de fora, e o mais importante, aos seus p\u00e9s est\u00e1 uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida. \u00c9 uma posi\u00e7\u00e3o vertical, sentada, com cadeiras especiais ou improvisadas, que foi muito utilizada, durante a Idade M\u00e9dia e at\u00e9 ao s\u00e9c. XVIII. \u00c0 \u00e9poca da escultura, a posi\u00e7\u00e3o mais comum era a vertical, mas agachada. H\u00e1 est\u00f3rias actuais, de mulheres do campo que surpreendidas pelo parto e vendo-se s\u00f3s, utilizaram a posi\u00e7\u00e3o agachada.<\/p>\n<p>As representa\u00e7\u00f5es escult\u00f3ricas masculinas s\u00e3o escassas, o mesmo n\u00e3o se verifica nas pinturas rupestres, onde assumem formas antropom\u00f3rficas, com cabe\u00e7as de animais, podendo isto estar relacionado com actividades xam\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Em Larissa, na Gr\u00e9cia, foi encontrada uma escultura, de argila, com uma data\u00e7\u00e3o de 5 000 aC, representando um homem sentado a masturbar-se. Igualmente, para a mulher, existe uma escultura, muito prim\u00e1ria, de argila, encontrada em Malta, data\u00e7\u00e3o de 4 000 aC, representando uma mulher a masturbar-se. Ela est\u00e1 sentada com as pernas levantadas e afastadas, com os grandes l\u00e1bios tumefactos, uma m\u00e3o na vulva e outra na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Outros artefactos que chamam a aten\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os bast\u00f5es declaradamente f\u00e1licos, alguns com as bolsas escrotais bem esculpidas, e muitos com decora\u00e7\u00f5es gravadas, que poderiam ser bast\u00f5es de comando. Encontram-se muitos artefactos destes, em marfim de mamute e pedra calc\u00e1ria, em muitas esta\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas europeias, uns mais trabalhados que outros, esculpidos entre 20 000 e 10 000 aC.<\/p>\n<p>H\u00e1 um, intrigante, proveniente de Dolni Vestonice (Rep\u00fablica Checa), de marfim de mamute, com um comprimento de 8,7 cm, muito estilizado e harmonioso. Na jun\u00e7\u00e3o do ter\u00e7o com os dois ter\u00e7os da pe\u00e7a encontram-se duas forma\u00e7\u00f5es ov\u00f3ides, pendentes que ultrapassam em largura o corpo da pe\u00e7a que, cont\u00e9m grava\u00e7\u00f5es, n\u00e3o indicativas de qualquer forma\u00e7\u00e3o corporal. P\u00f5e-se o dilema: s\u00e3o test\u00edculos ou s\u00e3o mamas? O quer que seja pode ser bast\u00e3o de comando, um objecto para pr\u00e1ticas rituais ou um dildo.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, foi encontrado na Dordogne, produzido no Paleol\u00edtico Superior, um bast\u00e3o f\u00e1lico duplo, com muitas grava\u00e7\u00f5es, conferindo-lhe um valor est\u00e9tico, funcionalmente permitindo a introdu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea a duas mulheres facultando, uma masturba\u00e7\u00e3o partilhada.<\/p>\n<p>Como penso que deixei expresso, na aus\u00eancia da escrita ou de uma transmiss\u00e3o oral, h\u00e1 uma grande dificuldade na interpreta\u00e7\u00e3o dos artefactos art\u00edsticos, quanto ao seu valor simb\u00f3lico e quanto \u00e0 sua funcionalidade, pondo-se hip\u00f3teses interessantes, plaus\u00edveis, mas sempre contaminadas, por muito que se n\u00e3o queira, pelos nossos contextos actuais, desfocados, eventualmente, das inten\u00e7\u00f5es art\u00edsticas epocais long\u00ednquas.<\/p>\n<p>Isto, a prop\u00f3sito dos bast\u00f5es como dildos, com prov\u00e1vel utiliza\u00e7\u00e3o em rituais com a desflora\u00e7\u00e3o. A sua introdu\u00e7\u00e3o pode ser mais ampla, abarcando a oral e anal. Pensa-se que a utiliza\u00e7\u00e3o de dildos, rebatizados de brinquedos sexuais, se iniciou na Idade do Gelo. Se se verificaram introdu\u00e7\u00f5es vaginais de objectos, com intuitos sexuais, em s\u00edmios em liberdade, atendendo a aspectos evolucion\u00e1rios, porque n\u00e3o admitir o seu uso ancestral, pelo menos, ap\u00f3s a passagem \u00e0 posi\u00e7\u00e3o b\u00edpede, com melhor acesso \u00e0 vulva.<\/p>\n<p>Existe um fragmento de uma grava\u00e7\u00e3o em osso de rena (do Paleol\u00edtico Superior), encontrado na Dordogne, em que se v\u00ea um animal, um veado, em p\u00e9, com o p\u00e9nis erecto, colocado sobre uma f\u00eamea, provavelmente xam\u00e2nica, sob a condi\u00e7\u00e3o de mulher-animal com pernas correspondendo \u00e0s de uma cor\u00e7a, com o ventre aumentado, por prov\u00e1vel gravidez, com peles cobrindo parcialmente o abd\u00f3men com v\u00e1rios adornos, colares e pulseiras.<\/p>\n<p>A Arte Rupestre implica pintura, escultura e grava\u00e7\u00e3o. A c\u00e9u aberto, existem poucas pinturas, \u00e9 minha convic\u00e7\u00e3o que a usura do tempo, n\u00e3o permitiu que muit\u00edssimas mais chegassem at\u00e9 n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u00c0 entrada de uma gruta na Dordogne, com uma data\u00e7\u00e3o de 30 000-25 000 aC, encontra-se a grava\u00e7\u00e3o de uma fenda vulvar, bem definida e profunda e que, sob o ponto de vista simb\u00f3lico levanta a quest\u00e3o de se saber se esta vulva n\u00e3o representa o acesso ao \u00fatero, que a caverna configura.<\/p>\n<p>Como exemplo de uma escultura na rocha, refiro ainda uma interessant\u00edssima escultura ou, talvez melhor, baixo-relevo, em rocha calc\u00e1ria, na Dordogne, com data\u00e7\u00e3o de 22 000 a 18 000 aC., denominada V\u00e9nus com um chifre ou simplesmente V\u00e9nus de Loussel, de um grande simbolismo relacionado com a reprodu\u00e7\u00e3o. Tem numa m\u00e3o, levantada, um chifre de bisonte, encurvado como normalmente, representando uma lua no quarto crescente, tem incis\u00f5es, representando os treze dias do quarto crescente e os treze meses do ano lunar; a outra m\u00e3o, desca\u00edda, aponta para um ventre aumentado de volume, por prov\u00e1vel gravidez, parecendo estar a estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o das fases da lua, quarto crescente, com uma gravidez.<\/p>\n<h4><em>A grava\u00e7\u00e3o e pintura, em rocha, tem um bom exemplo em Foz C\u00f4a, o Homem da Ribeira de Piscos com data\u00e7\u00e3o \u00e0 volta de 15 000 aC. Trata-se de tr\u00eas grava\u00e7\u00f5es sobrepostas, em que h\u00e1 um auroque pintado que tem outro, mais pequeno, no seu interior; em sobreposi\u00e7\u00e3o, e em primeiro plano, encontra-se um homem, em erec\u00e7\u00e3o, com um p\u00e9nis de grandes dimens\u00f5es a ejacular<\/em><\/h4>\n<p>A grava\u00e7\u00e3o e pintura, em rocha, tem um bom exemplo em Foz C\u00f4a, com o Homem da Ribeira de Piscos com data\u00e7\u00e3o \u00e0 volta de 15 000 aC. Trata-se de tr\u00eas grava\u00e7\u00f5es sobrepostas, em que h\u00e1 um auroque pintado que tem outro, mais pequeno, no seu interior; em sobreposi\u00e7\u00e3o, e em primeiro plano, encontra-se um homem, em erec\u00e7\u00e3o, com um p\u00e9nis de grandes dimens\u00f5es, a ejacular. E porque n\u00e3o a ejacular? H\u00e1 provas de que os neandertais estiveram neste vale, mas isso foi cerca de 15 000 anos antes destas grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o entre homininis e animais e a sua depend\u00eancia deles, \u00e9 um facto com milh\u00f5es de anos: carne, peles para vestu\u00e1rio e paredes das tendas, ossos de mamute para fazer as tendas no per\u00edodo glaciar, instrumentos musicais a partir dos ossos, dentes como adornos, material para actividades art\u00edsticas, etc.. Para relacionamento sexual, s\u00f3 ap\u00f3s a domestica\u00e7\u00e3o de animais de m\u00e9dio porte, o que aconteceu h\u00e1 dez mil anos. Refiro uma pintura em Vale Cam\u00f3nica nos Alpes italianos com 3 000 aC, representando um homem a fazer sexo com uma burra e uma outra na Sib\u00e9ria (R\u00fassi), em que um homem com skis tenta copular um alce.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 homossexualidade, o exemplo, no Mesol\u00edtico (um pouco fora j\u00e1, dos par\u00e2metros temporais a que me propus, at\u00e9 por que as comunidades deste per\u00edodo, s\u00e3o diferentes das da Idade do Gelo, 110 000 a 12 000 anos, com um pico aos 25 000), de interessantes grava\u00e7\u00f5es na rocha na gruta de Addaura, na Sic\u00edlia (It\u00e1lia): os participantes desta festa, pertencem aos dois sexos e est\u00e3o nus; dois homens, com os p\u00e9nis erectos encontram-se deitados no ch\u00e3o, parecendo rolar um sobre o outro, enquanto os outros sete circundantes parecem dan\u00e7ar e possivelmente cantar. Na realidade h\u00e1 v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es, uns v\u00eaem nesta representa\u00e7\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o homossexual dos dois indiv\u00edduos deitados, outros uma demonstra\u00e7\u00e3o acrob\u00e1tica, outros uma cerim\u00f3nia inici\u00e1tica, com a virilidade como componente principal, outros de sacrif\u00edcio humano, outros, ainda, de uma execu\u00e7\u00e3o de prisioneiros por enforcamento. De qualquer modo o car\u00e1cter sexual parece bem evidente.<\/p>\n<p>A Arte rupestre nas cavernas tem uma outra abordagem. Foram encontradas 150 cavernas (a mais antiga \u00e9 a de Chauvet com uma data\u00e7\u00e3o de 31 000 aC, em Fran\u00e7a), quase todas no Norte de Espanha, Sul da Fran\u00e7a e da Alemanha e regi\u00f5es mais a Leste da Europa. A Pintura rupestre est\u00e1 ligada aos Cro-Magnons que coabitaram ainda com os Neandertais, antes da sua extin\u00e7\u00e3o. Os temas centrais est\u00e3o relacionados com os animais, especialmente de grande e m\u00e9dio porte, de que estavam muito dependentes. As magn\u00edficas cores que se veem, hoje, nas cavernas, podem n\u00e3o ser as que foram utilizadas, mais frequentemente, ocres vermelhos e amarelos, carv\u00e3o e fuligem, cuja durabilidade \u00e9 vari\u00e1vel. Os \u00f3xidos de ferro e os hidr\u00f3xidos mudam de cor. Os pigmentos brancos podem passar a negro, e os negros a verde. Dependem tamb\u00e9m da constitui\u00e7\u00e3o qu\u00edmica e da textura da rocha onde s\u00e3o aplicadas e das condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas no interior da gruta.<\/p>\n<p>Qual a finalidade da sua execu\u00e7\u00e3o e porqu\u00ea em cavernas, geralmente muito fundas e de dif\u00edcil acesso? Porqu\u00ea esconder as suas obras? N\u00e3o parece que fosse uma quest\u00e3o de preserva\u00e7\u00e3o. No Paleol\u00edtico Superior, havia j\u00e1 sentimentos de transcend\u00eancia, de religiosidade, com complexidade de pensamentos e de simbolismos, necess\u00e1rios at\u00e9 \u00e0 coes\u00e3o das comunidades e \u00e0 entreajuda nas tarefas indispens\u00e1veis \u00e0 sua subsist\u00eancia. Logo, muito provavelmente estas cavernas seriam lugares de culto e daqui saltamos para o xamanismo. Os xam\u00e3s transformam-se em pessoas sagradas, com poderes m\u00e1gicos, fazendo a liga\u00e7\u00e3o entre um mundo sobrenatural e o grupo, atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas de obten\u00e7\u00e3o do \u00eaxtase (com pr\u00e1ticas meditativas especiais e\/ou com m\u00fasica, dan\u00e7a e, naquele tempo, com plantas) \u2013 muitas das pr\u00e1ticas religiosas favorecem a liberta\u00e7\u00e3o de endorfinas a n\u00edvel cerebral.<\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 a gruta de Trois Fr\u00e8res, em Fran\u00e7a. V\u00e1rias figuras humanas est\u00e3o representadas na gruta com os Xam\u00e3s a serem representados por figuras h\u00edbridas, homem-animal, cujo corpo \u00e9 humano e a cabe\u00e7a animal. Uma dessas representa\u00e7\u00f5es, pintada e gravada, conhecida como Feiticeiro, apresenta uma mistura de v\u00e1rios animais com um rosto de p\u00e1ssaro, um mocho, que tem vis\u00e3o noturna (o xam\u00e3 deve ver no escuro), orelhas de lobo, cabe\u00e7a e arma\u00e7\u00e3o de rena, corpo e cauda de cavalo, patas dianteiras de urso, sendo as pernas, os p\u00e9s, \u00f3rg\u00e3os sexuais e postura, humanos. Nesta gruta h\u00e1 outras duas figuras xam\u00e2nicas: uma, meio homem-meio bisonte; outra, exactamente com a mesma conforma\u00e7\u00e3o corporal, mas com um grande p\u00e9nis. Quer o bisonte quer o veado s\u00e3o animais cuja organiza\u00e7\u00e3o social \u00e9 a poliginia e a posse de har\u00e9m. Com estas representa\u00e7\u00f5es, e com a sua proximidade aos animais, seria natural que as sociedades tomassem para si, como modelo, o acasalamento polig\u00ednico. As grutas poderiam ter servido, tamb\u00e9m, para a inicia\u00e7\u00e3o de jovens masculinos para a sua integra\u00e7\u00e3o na sociedade masculina adulta.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta gruta de Trois Fr\u00e8res que se encontra um dos primeiros testemunhos da Arte musical, um tocador de flauta, o que refor\u00e7a a ideia de que nos rituais nas cavernas, haveria acompanhamentos musicais. P\u00f5e-se a hip\u00f3tese de os primeiros sons, de carater r\u00edtmico, emitidos a partir de artefactos l\u00edticos ou lenhosos, terem sido criados antes dos homin\u00eddeos terem emitido sons vocais com algum significado. A partir do Homo habilis, cerca de 1,7 milh\u00f5es de anos, com o aparecimento da fala, \u00e9 muito prov\u00e1vel que tenha havido alguma melhoria naqueles artefactos, e que com o aparecimento do Homo sapiens sapiens, no Paleol\u00edtico superior, e agora sim, com o desenvolvimento da linguagem, houvesse lugar ao canto e \u00e0 m\u00fasica. Existem circuitos cerebrais para o processamento musical como a circunvolu\u00e7\u00e3o temporal superior e a circunvolu\u00e7\u00e3o de Heschl, que cont\u00e9m o c\u00f3rtex auditivo prim\u00e1rio. A audi\u00e7\u00e3o de sons musicais pode desencadear emo\u00e7\u00f5es e regular estados de humor apoiados em bases neuronais relacionadas com o prazer biol\u00f3gico, recompensa e motiva\u00e7\u00e3o dos homin\u00eddeos e de alguns animais. As estruturas mesol\u00edmbicas dos g\u00e2nglios basais onde se situa o <em>n\u00facleo accumbens<\/em>, constitu\u00eddo por neur\u00f3nios dopamin\u00e9rgicos, relacionados com a recompensa, est\u00e1 largamente conectado com outras partes do sistema l\u00edmbico. Os circuitos de recompensa s\u00e3o filogeneticamente antigos.<\/p>\n<p>Foram encontrados artefactos produtores de sons pelo sopro, 120 considerados como flautas, sendo a mais completa, encontrada na Alemanha, com uma data\u00e7\u00e3o de 35 000 anos e mais de 90 assobios e uma melhoria de qualidade de instrumentos, com a introdu\u00e7\u00e3o de ossos como mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n<p>Na gruta de los Casares, em Espanha, encontram-se v\u00e1rias grava\u00e7\u00f5es, datadas de 30 000 a 15 000 anos, sendo uma delas, a representa\u00e7\u00e3o mais antiga de coito. A figura masculina, com um falo enorme repousando sobre o ventre e o p\u00fabis da mulher, com uma esteatopigia muito acentuada, volta a cabe\u00e7a para olhar para um mamute; representa uma cerim\u00f3nia de ritual sexual ou hierogamia. Ainda em Espanha, na gruta de La Marche, encontra-se uma representa\u00e7\u00e3o de um coito frontal, mais recente, mas ainda no Paleol\u00edtico superior.<\/p>\n<p>Existem grutas, ainda com vest\u00edgios de andaimes de madeira, montados para colocar os artistas pintores ao n\u00edvel das suas pinturas nas paredes e possibilitar tamb\u00e9m a pintura dos tectos. Marcas de fuligem mostram que, tochas ou velas acesas, eram utilizadas para iluminar quem estava a trabalhar. Nas reuni\u00f5es cerimoniais, muito provavelmente devido \u00e0 localiza\u00e7\u00e3o, bem no interior, seguramente deveria haver ilumina\u00e7\u00e3o artificial, para da\u00ed tirar alguns efeitos c\u00e9nicos. As culturas envolvem c\u00f3digos de repress\u00e3o. Os c\u00f3digos de conduta sexual variam de sociedade para sociedade e, quando s\u00e3o incongruentes com outras, em que s\u00e3o estabelecidas de algum modo rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia, as mais repressivas, se tiverem maior poder (militar, pol\u00edtico ou religioso), tendem a impor os seus c\u00f3digos de maneira absoluta. H\u00e1 um documento etnogr\u00e1fico espl\u00eandido, a carta de P\u00earo Vaz de Caminha ao Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil, mas antes de fazer pequenas transcri\u00e7\u00f5es, algumas considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias. O conte\u00fado da carta \u00e9 o relato de um reencontro, aqui pac\u00edfico, de pessoas do mesmo g\u00e9nero (Homo sapiens), que partindo de \u00c1frica, se separaram h\u00e1 90 000 a 85 000 anos, ainda como Homo sapiens arcaico tardio. Uns chegaram \u00e0 Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, h\u00e1 40 000 a 25 000 anos, j\u00e1 como Homo sapiens moderno, depois de alguns entrecruzamentos. Passadas algumas dezenas de milhares de anos, n\u00e3o contentes com a sua confina\u00e7\u00e3o a um pequeno territ\u00f3rio (o mais ocidental da Europa), resolveram por ambi\u00e7\u00e3o expandir-se pelo Mundo. Vestidos, possuindo tecnologias v\u00e1rias, caravelas, conhecimentos de Astronomia, instrumentos de marear, armas de fogo, armaduras, conhecimentos de conserva\u00e7\u00e3o de alimentos, conhecimentos avan\u00e7ados de Medicina (para a \u00e9poca), escrita, livros.<br \/>\nOs outros fizeram um longo percurso temporal de cerca de 75 000 a 70 000 anos mas, tamb\u00e9m espacial. Deslocaram-se uns pelo centro e outros pelo sul da \u00c1sia, bordejando estes as costas asi\u00e1ticas, sofrendo extensos per\u00edodos de altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, com per\u00edodos longos de Gelo, de vulc\u00f5es terr\u00edveis que os iam dizimando, subindo at\u00e9 ao estreito de Bering, certamente com entrecruzamentos at\u00e9 aqui chegarem, h\u00e1 15 000 anos. Alguns deles em pequeno n\u00famero, atravessaram por via terrestre, porque as \u00e1guas dos oceanos tinham baixado e passados anos voltaram a subir. Uma ida sem regresso e assim chegaram ao Alaska, onde se detiveram, por condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis devido ao gelo; uns ficaram, s\u00e3o os actuais esquim\u00f3s, outros foram \u00e0 procura de melhor clima; uns desceram pelas costas do Pac\u00edfico, outros atravessaram o continente da Am\u00e9rica do Norte at\u00e9 ao Atl\u00e2ntico, descendo depois, sempre pela costa atl\u00e2ntica at\u00e9 \u00e0 Am\u00e9rica do Sul. E a\u00ed os fomos encontrar, nus, armados de arcos e flechas, com conhecimentos suficientes de pigmentos para embelezarem os corpos, com adornos de penas, l\u00e1bios perfurados com pedras coloridas a\u00ed introduzidas; ao fim de muitos milhares de anos e de muitos milhares de quil\u00f3metros, duas culturas, muito diferentes, estavam frente a frente, uma estava na Hist\u00f3ria, a outra estava de onde nunca tinha sa\u00eddo, no Paleol\u00edtico Superior.<\/p>\n<p>Agora alguns excertos: \u201cquando o batel chegou \u00e0 boca do rio, eram ali 18 ou 20 homens pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que lhes cobrisse suas vergonhas\u201d. \u201cAndam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas\u201d. \u201cAli acudiram logo obra de 200 homens todos nus, e com arcos e setas nas m\u00e3os\u201d. \u201cE andavam a\u00ed outros quartejados de cores, isto \u00e9: deles a metade da sua pr\u00f3pria cor e a metade de tintura negra, maneira de azulada, e outros quartejados d\u2019 escaques [xadrez]\u201d. \u201cAli andavam entre eles tr\u00eas ou quatro mo\u00e7as, bem mo\u00e7as e bem gentis\u2026 e suas vergonhas t\u00e3o altas e t\u00e3o \u00e7arradinhas [fechadinhas] e t\u00e3o limpas das cabeleiras que de as n\u00f3s t\u00e3o bem olharmos n\u00e3o t\u00ednhamos nenhuma vergonha\u201d. \u201c\u2026cheio de penas , pegadas ao corpo, que parecia assetado como S. Sebasti\u00e3o, outros traziam carapu\u00e7as de penas amarelas e outros de vermelho e outros de verde. E uma daquelas mo\u00e7as era toda tinta, de fundo acima, daquela tintura, a qual, certo, era t\u00e3o bem feita e t\u00e3o redonda e sua vergonha, que ela n\u00e3o tinha, t\u00e3o graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais fei\u00e7\u00f5es, fizera vergonha por n\u00e3o terem a sua como ela. Nenhum deles n\u00e3o era fanado [circuncisado], mas todos assim como n\u00f3s\u201d. \u201cTamb\u00e9m andavam entre eles quatro ou cinco mulheres mo\u00e7as, assim nuas que n\u00e3o pareciam mal, entre as quais andava uma mo\u00e7a com uma coxa, do joelho at\u00e9 ao quadril e a n\u00e1dega, toda tinta daquela pintura preta e o resto todo da sua pr\u00f3pria cor\u201d. \u201c\u2026 outra mulher mo\u00e7a com um menino ou menina no colo, atado com um pano n\u00e3o sei de qu\u00ea aos peitos, que lhe n\u00e3o apareciam sen\u00e3o as perninhas, mas as pernas da m\u00e3e e o resto n\u00e3o traziam nenhum pano.\u201d \u201c\u2026e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e esp\u00e1duas e pelos quadris, coxas e pernas at\u00e9 baixo; e os vazios com a barriga e est\u00f4mago eram da sua pr\u00f3pria cor. E a tintura era assim vermelha que a \u00e1gua lha n\u00e3o comia nem desfazia; antes, quando sa\u00eda da \u00e1gua, era mais vermelho\u201d.<\/p>\n<p>Quando os zelosos mission\u00e1rios chegaram, as \u201cvergonhas\u201d tiveram de ser tapadas. Veja-se o que aconteceu, \u00e0s popula\u00e7\u00f5es locais, no s\u00e9c. XVI, na Am\u00e9rica do Sul ocidental, com os invasores espanh\u00f3is, que imbu\u00eddos da sua religiosidade crist\u00e3 e instigados pelos mission\u00e1rios, destru\u00edram completamente os seus c\u00f3digos de conduta sexual e todos os seus s\u00edmbolos, quer esculturas, quer objectos de joalharia, quer simples bilhas de barro e como seria espect\u00e1vel, locais de culto da homossexualidade e transvestismo.<\/p>\n<p>Mas no s\u00e9culo passado, aconteceu o mesmo com objectos er\u00f3ticos, que foram totalmente destru\u00eddos, na China, durante a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural ou Grande Revolu\u00e7\u00e3o Cultural Prolet\u00e1ria, iniciada em Maio de 1966, sob a direc\u00e7\u00e3o de Mao-Ts\u00e9-tung e executada pelos Guardas Vermelhos.<\/p>\n<p>Ao longo deste longo artigo, fui incensando as tecnologias, as correntes te\u00f3ricas, o trabalho de campo, e outro, dos investigadores e, perante, ainda, tantos aspectos nebulosos, fiz apelo, metaforicamente, ao Or\u00e1culo de Delfos \u201cinverso\u201d. Tenho um percurso, estudantil e profissional, de quase sessenta anos, a acreditar e a maravilhar-me com o conhecimento cient\u00edfico. Houve e h\u00e1, tanta gente abnegada, inteligente e culta, a quem devemos tanto. Afinal, a Hist\u00f3ria pode ser reescrita por boas raz\u00f5es. Afinal, n\u00e3o precisamos de nenhuma pitonisa do Or\u00e1culo de Delfos para adivinhar o futuro. O futuro pode antever-se com o desenvolvimento da Ci\u00eancia, mas sem perder uma vis\u00e3o humanista deste Mundo em que vivemos e, a humildade e a lucidez de um Giordano Bruno, fil\u00f3sofo e astr\u00f3nomo italiano \u201cSe non \u00e8 vero, \u00e8 ben trovato\u201d (1584).<\/p>\n<p>* Por decis\u00e3o pessoal, o autor do texto n\u00e3o escreve segundo o novo Acordo Ortogr\u00e1fico<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Bibliografia base<\/strong><\/p>\n<p>Adovasio, J.M., Soffer, O., Page, J. (2008). <em>El sexo invisible. Una nueva mirada a la historia de las mujeres. <\/em>Barcelona: Random House Mandadori S. A.<\/p>\n<p>Crow, T. J. (2002). <em>The Speciation of Modern Homo sapiens. <\/em>New York: Oxford University Press Inc.<\/p>\n<p>Cruz, M. (Coord). (2009).<em> A Arte antes e depois da Arte. <\/em>Cadernos C\u00f4a 03. Lisboa: IGESPAR e CECL.<\/p>\n<p>Dam\u00e1sio, A. (2017). <em>A estranha ordem das coisas. A vida, os sentimentos e as culturas humanas. <\/em>Lisboa: Temas e Debates-C\u00edrculo de Leitores.<\/p>\n<p>Diamond, J. (2001<em>). Porque Gostamos de Sexo. A Evolu\u00e7\u00e3o da Sexualidade Humana.<\/em> Lisboa: Temas e Debates.<\/p>\n<p>Dumbar, R. (2006). <em>A Hist\u00f3ria do Homem. Uma nova hist\u00f3ria da humanidade.<\/em> Lisboa: Bertrand Editora, Lda<\/p>\n<p>Fisher, H. (1994). <em>Anatomia do Amor. <\/em>Lisboa: Publica\u00e7\u00f5es Dom Quixote.<\/p>\n<p>F\u00f3rum Gulbenkian de Sa\u00fade 2012. (2014). <em>Brain. Org.<\/em> Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gukbenkian.<\/p>\n<p>Taylor, T. (1996). <em>The Prehistory of Sex. Four million Years of Human Sexual Culture. <\/em>New York: Bantam Books.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] &nbsp; Uma reflex\u00e3o de\u2026 A. Santinho Martins, endocrinologista, sex\u00f3logo e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica (2004-2005). &nbsp; Percurso\u00a0 Licenciado em Medicina pela Universidade Cl\u00e1ssica de Lisboa. Assistente Hospitalar Graduado de Endocrinologia do Hospital J\u00falio de Matos (aposentado em 2005). Colaborador do Servi\u00e7o de Gen\u00e9tica do Hospital de Dona Estef\u00e2nia (1994-1998). 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