{"id":8656,"date":"2018-11-30T15:58:30","date_gmt":"2018-11-30T15:58:30","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=8656"},"modified":"2019-03-22T17:03:37","modified_gmt":"2019-03-22T17:03:37","slug":"sistemas-de-acasalamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/11\/30\/sistemas-de-acasalamento\/","title":{"rendered":"Sistemas de acasalamento"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_single_image image=&#8221;8657&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; style=&#8221;vc_box_rounded&#8221; label=&#8221;&#8221;][vc_column_text]<strong>A reflex\u00e3o de&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/cfcul.fc.ul.pt\/equipa\/lvicente.php\">Lu\u00eds Vicente<\/a>, bi\u00f3logo, professor universit\u00e1rio, doutorado em Evolu\u00e7\u00e3o. Centro de Filosofia das Ci\u00eancias da Universidade de Lisboa,\u00a0Faculdade de Ci\u00eancias da Universidade de Lisboa,\u00a0Universidade Lus\u00f3fona de Humanidades e Tecnologia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Percurso&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3cio fundador da Sociedade Portuguesa de Etologia (Secret\u00e1rio-geral no bi\u00e9nio 1987-1989, membro do Conselho Cient\u00edfico da Dire\u00e7\u00e3o entre 1989-1991 e membro da Dire\u00e7\u00e3o at\u00e9 2013). S\u00f3cio fundador da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Primatologia (membro da Dire\u00e7\u00e3o desde 2004). Membro da International Primatological Society. Membro da Associa\u00e7\u00e3o EUROCOAST de Portugal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><\/p>\n<p>30 de novembro de 2018[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>Suporte te\u00f3rico<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o existe Ci\u00eancia sem Teoria. A Biologia move-se, hoje em dia, num quadro de refer\u00eancia neo-darwinista. O neo-darwinismo \u00e9 uma das teorias da evolu\u00e7\u00e3o, a mais aceite pela comunidade cient\u00edfica: \u00e9 a teoria da evolu\u00e7\u00e3o por selec\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras, muito minorit\u00e1rias. Como qualquer teoria em ci\u00eancia, o neo-darwinismo \u00e9 biodegrad\u00e1vel. Outras vir\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d das esp\u00e9cies ao longo do tempo o ge\u00f3logo brit\u00e2nico Charles Lyell chamou, no s\u00e9culo XIX, \u201cevolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Uma teoria da evolu\u00e7\u00e3o pretende explicar os mecanismos implicados na transforma\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Desde logo assume o princ\u00edpio dial\u00e9tico do movimento: tudo se transforma. O Planeta est\u00e1 em constante transforma\u00e7\u00e3o, os ambientes mudam e sobrevivem os seres vivos com capacidade de adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as. Mant\u00eam-se historicamente as caracter\u00edsticas daqueles que deixam descend\u00eancias mais numerosas.<\/p>\n<h4><em>O acasalamento \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o rancorosa entre dois indiv\u00edduos de sexos diferentes para a concretiza\u00e7\u00e3o de um objectivo comum \u2013 a replica\u00e7\u00e3o dos seus genes<\/em><\/h4>\n<p><strong>Esp\u00e9cie<\/strong><\/p>\n<p>Falamos de esp\u00e9cies: <em>Pinus pinaster<\/em> (o pinheiro bravo), <em>Drosophila melanogaster<\/em> (a mosca da fruta), <em>Canis lupus<\/em> (o lobo) ou <em>Homo sapiens<\/em> (n\u00f3s).<\/p>\n<p>N\u00f3s somos grandes s\u00edmios. Somos vertebrados, mam\u00edferos e primatas, ao lado dos chimpanz\u00e9s, dos bonobos, dos gorilas e dos orangotangos. Pertencemos \u00e0 Superfam\u00edlia <em>Hominoidea<\/em>, \u00e0 Fam\u00edlia <em>Hominidae<\/em>, \u00e0 Subfam\u00edlia <em>Homininae<\/em>, \u00e0 Tribo <em>Hominini<\/em>, \u00e0 Subtribo <em>Hominina<\/em>, ao G\u00e9nero <em>Homo<\/em> e \u00e0 Esp\u00e9cie <em>Homo sapiens<\/em>.<\/p>\n<p>Chamamos esp\u00e9cie a um conjunto de indiv\u00edduos que se reproduzem e se assemelham entre si (do ponto de vista morfol\u00f3gico, fisiol\u00f3gico, comportamental, ecol\u00f3gico) e que s\u00e3o diferentes de outros conjuntos de indiv\u00edduos com os quais n\u00e3o se reproduzem.<\/p>\n<p>Esp\u00e9cie \u00e9 uma linha evolutiva que estabelece rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas (com outras esp\u00e9cies e com o meio) minimamente diferente de qualquer outra linha evolutiva que exista no interior da sua \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o e que evolui separadamente de todas as outras linhas evolutivas fora da sua \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o. Aquilo a que chamamos esp\u00e9cie \u00e9 um estado de equil\u00edbrio que se estabelece entre os seres vivos e o meio onde vivem.<\/p>\n<p><strong>Evolu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A Evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 um debate em que h\u00e1 propostas diferentes, onde cada proposta \u00e9 defendida e imediatamente contradita. Cada proposta chama-se adapta\u00e7\u00e3o e todas as respostas conjugadas inventam o futuro.<\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 o poder de argumenta\u00e7\u00e3o dos organismos no seu debate com o meio ambiente em permanente transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O devir resulta da contraposi\u00e7\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o de contradi\u00e7\u00f5es. Contradi\u00e7\u00f5es entre a unidade e multiplicidade, o singular e o universal e o movimento e a imobilidade.<\/p>\n<p>Ac\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, nega\u00e7\u00e3o da nega\u00e7\u00e3o e contradi\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a qualitativa, s\u00e3o os ingredientes adaptativos da Evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O processo de Evolu\u00e7\u00e3o recorre a 2 mecanismos b\u00e1sicos:<\/p>\n<ul>\n<li>Selec\u00e7\u00e3o: garante que os indiv\u00edduos mais aptos tenham maior probabilidade de sobreviver \u2013 mais descendentes propagando as suas caracter\u00edsticas.<\/li>\n<li>Reprodu\u00e7\u00e3o com varia\u00e7\u00e3o: garante que os descendentes gerados n\u00e3o s\u00e3o uma c\u00f3pia fiel dos progenitores.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o das duas for\u00e7as permite que, ao longo de sucessivas gera\u00e7\u00f5es a popula\u00e7\u00e3o evolua.<\/p>\n<p>Aquilo que cada um de n\u00f3s, animal \u00e9, resulta de uma interac\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, din\u00e2mica, hist\u00f3rica, entre tr\u00eas vectores: uma ontogenia (hist\u00f3ria individual), uma filogenia (hist\u00f3ria evolutiva \u2013 uma bagagem gen\u00e9tica) e um ambiente.<\/p>\n<p>N\u00f3s, seres vivos, animais, plantas, fungos, bact\u00e9rias, microorganismos, n\u00e3o somos genes, n\u00e3o somos ambiente, n\u00e3o somos passado\u2026 Somos um di\u00e1logo a tr\u00eas, indissoci\u00e1veis, genes, ambiente e passado. Somos o salto qualitativo que essa s\u00edntese constr\u00f3i. Somos uma constru\u00e7\u00e3o social em que interagem genes, ambiente e passado.<\/p>\n<p>No processo evolutivo existem, portanto, duas fontes poss\u00edveis: o potencial de informa\u00e7\u00f5es heredit\u00e1rias por um lado, e a experi\u00eancia por outro, ou seja, a confronta\u00e7\u00e3o permanente entre o indiv\u00edduo e o meio contribuem necessariamente para aquilo que cada um \u00e9. Em cada interac\u00e7\u00e3o com o seu meio, o organismo adquire informa\u00e7\u00f5es e memoriza-as para as utilizar numa pr\u00f3xima interac\u00e7\u00e3o do mesmo tipo.<\/p>\n<p>Pode assim dizer-se que h\u00e1 um di\u00e1logo a tr\u00eas. Em primeiro lugar h\u00e1 o organismo estruturado no tempo \u201ct\u201d representando, por natureza, um conjunto de constrangimentos para o seu futuro. Em segundo lugar existem informa\u00e7\u00f5es heredit\u00e1rias, geneticamente codificadas, inscritas e transportadas pelo organismo em desenvolvimento. O terceiro protagonista \u00e9 o ambiente.<\/p>\n<p>Muitas das informa\u00e7\u00f5es fornecidas por este participar\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do organismo, dos seus comportamentos, condicionando a sua hist\u00f3ria futura, canalizando os processos de desenvolvimento nos limites poss\u00edveis de variabilidade.<\/p>\n<p>Aqueles com uma predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica a responder aos est\u00edmulos ambientais de uma determinada maneira conjugada com uma experi\u00eancia anterior em conformidade poder\u00e3o aumentar a sua longevidade e produzir uma maior descend\u00eancia.<\/p>\n<p>Em resumo, a selec\u00e7\u00e3o natural actua durante toda a vida e n\u00e3o s\u00f3 na fase reprodutora. Consequentemente, em cada momento, o desenvolvimento do comportamento deve ser encarado como um produto da evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4><em>Existem numerosas classifica\u00e7\u00f5es dos sistemas de acasalamento propostas por v\u00e1rios autores, variando um pouco consoante os crit\u00e9rios ponderados. [&#8230;] <\/em><em>Nesta classifica\u00e7\u00e3o vamos considerar a exist\u00eancia de dois sexos, o que \u00e9 fortemente redutor mas permite o in\u00edcio da sua compreens\u00e3o<\/em><\/h4>\n<p><strong>Sexo e reprodu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>A Reprodu\u00e7\u00e3o Sexuada surge no Proteroz\u00f3ico h\u00e1 1200 milh\u00f5es de anos: \u00e9 a grande revolu\u00e7\u00e3o no processo evolutivo.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da Recombina\u00e7\u00e3o Gen\u00e9tica torna-se poss\u00edvel uma verdadeira explos\u00e3o da Biodiversidade&#8230; o salto qualitativo.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas a Recombina\u00e7\u00e3o, mas igualmente o surgimento de uma Ontogenia em que, a cada gera\u00e7\u00e3o, um ser se reconstr\u00f3i a partir de uma c\u00e9lula-ovo, havendo \u201cerros\u201d que poder\u00e3o ou n\u00e3o ter sucesso, sendo os \u201cerros\u201d com sucesso a base do processo evolutivo.<\/p>\n<p>Sexo significa simplesmente dois progenitores misturando genes e produzindo uma prole dotada dessa mistura: o sexo \u00e9 basicamente um mecanismo utilizado por seres sexuados no processo de reprodu\u00e7\u00e3o, onde ocorre a combina\u00e7\u00e3o de metade do material gen\u00e9tico (ADN) de cada um de dois indiv\u00edduos (um formalmente denominado macho e outro formalmente denominado f\u00eamea) formando-se uma prole que apresenta meia c\u00f3pia gen\u00e9tica de cada progenitor, o que acaba por promover variabilidade gen\u00e9tica no seio da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da promo\u00e7\u00e3o da variabilidade gen\u00e9tica a acelera\u00e7\u00e3o da taxa de evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma vantagem que uma popula\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos de reprodu\u00e7\u00e3o sexuada pode ter. A partir do sexo a combina\u00e7\u00e3o de muta\u00e7\u00f5es ben\u00e9ficas pode aumentar significativamente.<\/p>\n<p><strong>Sistemas de acasalamento <\/strong><\/p>\n<p>Cantando, o tentilh\u00e3o [Aves; <em>Fringilla coelebs<\/em>] macho atrai uma f\u00eamea com a qual acasala. Os tentilh\u00f5es s\u00e3o monog\u00e2micos. A monogamia \u00e9 um sistema de acasalamento.<\/p>\n<p>Considera-se um vasto conjunto de sistemas de acasalamento. Porque haver\u00e1 diversos sistemas de acasalamento? Quais os constrangimentos que levam um animal, uma popula\u00e7\u00e3o ou uma esp\u00e9cie a optar por um em detrimento de outro?<\/p>\n<p>o acasalamento \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o rancorosa entre dois indiv\u00edduos de sexos diferentes para a concretiza\u00e7\u00e3o de um objectivo comum \u2013 a replica\u00e7\u00e3o dos seus genes.<\/p>\n<p>\u201cRancorosa\u201d significa que podem existir interesses antag\u00f3nicos: o macho possui milh\u00f5es de espermatoz\u00f3ides que lhe permitem fecundar uma infinidade de f\u00eameas, enquanto a f\u00eamea gera poucas crias em cada acto de reprodu\u00e7\u00e3o e pode carecer do macho para a presta\u00e7\u00e3o de cuidados parentais; neste sentido o interesse do macho pode ser afastar-se para outras aventuras sexuais ap\u00f3s a c\u00f3pula, enquanto que o interesse da f\u00eamea pode ser manter o macho vinculado \u00e0 fam\u00edlia (esta ideia refere-se \u00e0 maioria dos animais de posturas quantitativamente limitadas ou em que a f\u00eamea n\u00e3o abandona os ovos aos cuidados do macho antes da sua fecunda\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<h4><em>Factores ecol\u00f3gicos como a preda\u00e7\u00e3o, a qualidade e distribui\u00e7\u00e3o de recursos e a disponibilidade de parceiros sexuais receptivos, influenciam a capacidade dos machos monopolizarem as f\u00eameas (ou o contr\u00e1rio) e a capacidade de as f\u00eameas escolherem entre potenciais pretendentes (na esmagadora maioria das esp\u00e9cies sexuadas s\u00e3o as f\u00eameas que escolhem os machos e n\u00e3o o contr\u00e1rio)<\/em><\/h4>\n<h4><em>\u00a0<\/em><\/h4>\n<p>Uma \u201cassocia\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma \u201cempresa\u201d. Ali\u00e1s, do ponto de vista do Direito, o casamento \u00e9 a constitui\u00e7\u00e3o de uma empresa. Na sua dissolu\u00e7\u00e3o, e de acordo com o C\u00f3digo Civil, obedece \u00e0s regras do direito empresarial. Trata-se, portanto, de um \u201cneg\u00f3cio\u201d. A decis\u00e3o sobre o \u201cneg\u00f3cio\u201d, requer uma avalia\u00e7\u00e3o de \u201cbenef\u00edcio\/custo\u201d e um \u201ccompromisso\u201d (<em>trade-off<\/em>) [todos estes conceitos s\u00e3o \u201cimigrantes econ\u00f3micos\u201d, conceitos n\u00f3madas no sentido definido por <em>Isabelle Stengers]<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p>Essa associa\u00e7\u00e3o pode ser <em>prec\u00e1ria<\/em> se n\u00e3o corresponder a uma vincula\u00e7\u00e3o duradoura (neste contexto, ser duradoura significa persistir ao longo de pelo menos uma \u00e9poca de reprodu\u00e7\u00e3o), ou <em>prolongada<\/em>, se a vincula\u00e7\u00e3o se mantiver ao longo de uma ou mais \u00e9pocas de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Factores ecol\u00f3gicos como a preda\u00e7\u00e3o, a qualidade e distribui\u00e7\u00e3o de recursos e a disponibilidade de parceiros sexuais receptivos, influenciam a capacidade dos machos monopolizarem as f\u00eameas (ou o contr\u00e1rio) e a capacidade de as f\u00eameas escolherem entre potenciais pretendentes (na esmagadora maioria das esp\u00e9cies sexuadas s\u00e3o as f\u00eameas que escolhem os machos e n\u00e3o o contr\u00e1rio).<\/p>\n<p>Dado que estas condi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas muitas vezes variam dentro e entre locais, uma consider\u00e1vel flexibilidade est\u00e1 usualmente associada aos padr\u00f5es de acasalamento de uma dada esp\u00e9cie.<\/p>\n<p><strong>Classifica\u00e7\u00e3o dos sistemas de acasalamento<\/strong><\/p>\n<p>Classificar significa reduzir, simplificar. Trata-se de reduzir cada situa\u00e7\u00e3o aos seus elementos essenciais, para depois tentar colocar estes elementos \u201cem movimento\u201d de acordo com alguns princ\u00edpios din\u00e2micos simples. \u00c9 portanto uma simplifica\u00e7\u00e3o, um afastamento da realidade para a tentar compreender.<\/p>\n<p>Ao \u201cclassificar\u201d os sistemas de acasalamento estamos a considerar simples uma realidade que \u00e9 complexa. \u00c9 necess\u00e1rio ter consci\u00eancia disto.<\/p>\n<p>T\u00eam sido utilizados diversos crit\u00e9rios de classifica\u00e7\u00e3o dos sistemas de acasalamento:<\/p>\n<ol>\n<li>n\u00famero de indiv\u00edduos com que cada indiv\u00edduo de cada sexo copula;<\/li>\n<li>grau de certeza com que \u00e9 poss\u00edvel prever que determinados indiv\u00edduos ir\u00e3o copular entre si, ou seja, tipo de v\u00ednculo estabelecido entre os parceiros sexuais, incluindo a coopera\u00e7\u00e3o na presta\u00e7\u00e3o dos cuidados parentais;<\/li>\n<li>dura\u00e7\u00e3o desse v\u00ednculo entre os parceiros.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Existem numerosas classifica\u00e7\u00f5es dos sistemas de acasalamento propostas por v\u00e1rios autores, variando um pouco consoante os crit\u00e9rios ponderados. Nesta abordagem vamos considerar a previsibilidade (probabilidade) como princ\u00edpio.<\/p>\n<p>Nesta classifica\u00e7\u00e3o vamos considerar a exist\u00eancia de dois sexos, o que \u00e9 fortemente redutor mas permite o in\u00edcio da sua compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Tomando-se a promiscuidade (aleatoriedade) como ponto de partida conceptual, considera-se que os outros sistemas de acasalamento manifestam uma redu\u00e7\u00e3o da aleatoridade.<\/p>\n<p>Quando ocorre outro sistema de acasalamento que n\u00e3o o prom\u00edscuo, \u00e9 porque esta redu\u00e7\u00e3o na aleatoridade proporciona um aumento do sucesso reprodutor.<\/p>\n<p>Com base nos tr\u00eas crit\u00e9rios atr\u00e1s referidos poder-se-\u00e1 construir uma classifica\u00e7\u00e3o dos sistemas de acasalamento.<\/p>\n<h6><strong>A. Promiscuidade<br \/>\n<\/strong><\/h6>\n<p>O acasalamento faz-se ao acaso, isto \u00e9, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever que parceiros v\u00e3o copular a partir do conhecimento das rela\u00e7\u00f5es entre cada macho e cada f\u00eamea. Observam-se c\u00f3pulas m\u00faltiplas, sem vincula\u00e7\u00e3o dur\u00e1vel, de pelo menos um dos sexos.<\/p>\n<h6><strong>B. Monogamia <\/strong><\/h6>\n<p>Cada indiv\u00edduo acasala apenas com um indiv\u00edduo do sexo oposto, sendo previs\u00edveis os parceiros a partir das rela\u00e7\u00f5es entre cada macho e f\u00eamea; s\u00e3o considerados dois tipos de monogamia:<\/p>\n<ol>\n<li>monogamia <em>perp\u00e9tua<\/em> quando o v\u00ednculo \u00e9 estabelecido para toda a vida, e<\/li>\n<li>monogamia <em>sazonal<\/em>, se o v\u00ednculo apenas se mant\u00e9m por uma \u00e9poca de reprodu\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<h6><strong>C. Poliginia <\/strong><\/h6>\n<p>Cada macho copula com mais de uma f\u00eamea e cada f\u00eamea copula com um s\u00f3 macho, sendo poss\u00edvel prever os parceiros a partir das suas rela\u00e7\u00f5es. Consideram-se tr\u00eas tipos diferentes de poliginia:<\/p>\n<ol>\n<li><em>Poliginia de defesa das f\u00eameas <\/em>quando as f\u00eameas vivem em grupos defendidos por um macho;<\/li>\n<li><em>Poliginia de defesa de recursos<\/em> quando os machos controlam recursos essenciais e a escolha por parte das f\u00eameas \u00e9 baseada nesses recursos;<\/li>\n<li><em>Poliginia de \u201cleks\u201d<\/em> quando os machos defendem territ\u00f3rios \u201csimb\u00f3licos\u201d, normalmente localizados em zonas \u201ctradicionais\u201d de exibi\u00e7\u00e3o \u2013 <em>leks<\/em> \u2013 e as f\u00eameas visitam esses locais, escolhem um macho, copulam e abandonam o local;<\/li>\n<\/ol>\n<h6><strong>D. Poliandria <\/strong><\/h6>\n<p>Cada f\u00eamea copula com mais do que um macho e cada macho copula com uma s\u00f3 f\u00eamea, podendo prever-se os parceiros a partir das suas rela\u00e7\u00f5es. Consideram-se quatro tipos de poliandria:<\/p>\n<ol>\n<li><em>Poliandria de defesa de recursos<\/em> se as f\u00eameas controlam o acesso aos machos indirectamente, atrav\u00e9s da monopoliza\u00e7\u00e3o de recursos essenciais;<\/li>\n<li><em>Poliandria em s\u00e9rie<\/em> quando, durante a \u00e9poca de reprodu\u00e7\u00e3o, uma f\u00eamea acasala com mais do que um macho, mas em per\u00edodos diferentes;<\/li>\n<li><em>Poliandria simult\u00e2nea<\/em> se a f\u00eamea acasala com v\u00e1rios machos no mesmo per\u00edodo;<\/li>\n<li><em>Poliandria cooperativa<\/em> que \u00e9 um caso particular de poliandria simult\u00e2nea em que a f\u00eamea acasala com v\u00e1rios machos que partilham o mesmo espa\u00e7o.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Embora existam casos de promiscuidade na Natureza, na maioria das popula\u00e7\u00f5es animais observa-se redu\u00e7\u00e3o da aleatoridade dos processos de acasalamento.<\/p>\n<p>A monogamia \u00e9 classicamente referida em Aves, embora muitos dos casos descritos inicialmente n\u00e3o sejam casos de monogamia \u201cpura\u201d \u2013 s\u00e3o observadas c\u00f3pulas extra-par frequentemente f\u00e9rteis.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em muitos dos casos de poliginia e poliandria referidos a redu\u00e7\u00e3o da aleatoridade nem sempre \u00e9 t\u00e3o completa como a defini\u00e7\u00e3o implica, observando-se f\u00eameas que copulam com outros machos e vice-versa.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mais comum \u00e9 a de uma esp\u00e9cie apresentar um s\u00f3 sistema de acasalamento, embora ocorram casos de esp\u00e9cies que apresentam v\u00e1rios. Por exemplo, a exist\u00eancia de estrat\u00e9gias mistas de acasalamento (mais do que uma no mesmo espa\u00e7o e\/ou no mesmo tempo) foi referida no seio de popula\u00e7\u00f5es de Lagartixa [R\u00e9pteis; <em>Podarcis carbonelli<\/em>] ou de Ferreirinha-comum [Aves; <em>Prunella modularis<\/em>].<\/p>\n<p>* Por decis\u00e3o pessoal, o autor do texto n\u00e3o escreve segundo o novo Acordo Ortogr\u00e1fico[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_single_image image=&#8221;8657&#8243; img_size=&#8221;full&#8221; style=&#8221;vc_box_rounded&#8221; label=&#8221;&#8221;][vc_column_text]A reflex\u00e3o de&#8230; Lu\u00eds Vicente, bi\u00f3logo, professor universit\u00e1rio, doutorado em Evolu\u00e7\u00e3o. Centro de Filosofia das Ci\u00eancias da Universidade de Lisboa,\u00a0Faculdade de Ci\u00eancias da Universidade de Lisboa,\u00a0Universidade Lus\u00f3fona de Humanidades e Tecnologia. &nbsp; Percurso&#8230; S\u00f3cio fundador da Sociedade Portuguesa de Etologia (Secret\u00e1rio-geral no bi\u00e9nio 1987-1989, membro do Conselho Cient\u00edfico da Dire\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":500,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[816,58,36,252,320,55],"tags":[717,716,719,718,731,727,730,247,728,525,729],"class_list":["post-8656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-de-opiniao","category-divulgacao-de-estudos-em-curso","category-noticias","category-outros-estudos-na-area","category-outros-estudos-na-area-2","category-noticias-relacionadas","tag-acasalamento","tag-biologia","tag-etologia","tag-evolucao","tag-femea","tag-lagartixa","tag-macho","tag-monogamia","tag-mosca","tag-poliandria","tag-poliginia"],"featured_image_src":{"landsacpe":false,"list":false,"medium":false,"full":false},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/500"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8656"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8690,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8656\/revisions\/8690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}