{"id":8692,"date":"2018-12-03T13:36:45","date_gmt":"2018-12-03T13:36:45","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=8692"},"modified":"2019-03-25T15:52:54","modified_gmt":"2019-03-25T15:52:54","slug":"saude-mental-e-sexualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2018\/12\/03\/saude-mental-e-sexualidade\/","title":{"rendered":"A sexualidade na sa\u00fade mental"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Captura-de-ecra\u0303-2018-12-3-a\u0300s-11.39.36.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-8694\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Captura-de-ecra\u0303-2018-12-3-a\u0300s-11.39.36-300x296.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"296\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Ana Matos Pires \u00e9 m\u00e9dica psiquiatra e Diretora do Servi\u00e7o de Psiquiatria da Unidade Local de Sa\u00fade do Baixo Alentejo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Percurso&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Assistente hospitalar graduada s\u00e9nior de psiquiatria. Mestre em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Docente do Mestrado Integrado de Medicina da Universidade do Algarve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Entrevista <\/strong><\/p>\n<p>Isabel Freire<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><\/p>\n<p>3 de dezembro de 2018[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>Ana Matos Pires, m\u00e9dica psiquiatra e diretora do Servi\u00e7o de Psiquiatria da Unidade Local de Sa\u00fade do Baixo Alentejo, diz-nos que continua a haver muitos e ensurdecedores sil\u00eancios no territ\u00f3rio da sa\u00fade mental. Defende que a psiquiatria equaciona hoje &#8220;mais e melhor&#8221; as quest\u00f5es da viv\u00eancia relacional, afetiva e sexual, no acompanhamento de doentes, mas que \u00e9 preciso libertar essa preocupa\u00e7\u00e3o de ju\u00edzos valorativos. O<\/strong><strong>s servi\u00e7os hospitalares precisam apostar na forma\u00e7\u00e3o cl\u00ednica multidisciplinar, para <\/strong><strong>n\u00e3o \u201cpatologizar\u201d, para \u201cdespatologizar\u201d, para acompanhar quem precisa. <\/strong><strong>Atualmente, em Portugal, n\u00e3o temos ainda respostas suficientes e adequadas para agressores sexuais condenados por crimes desta natureza. E menos ainda para v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual, um sil\u00eancio com consequ\u00eancias que podem ser \u201cdevastadoras e cr\u00f3nicas\u201d para os\/as sobreviventes.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica \u2013 H\u00e1 sil\u00eancios (ou discursos do sil\u00eancio) que insistem em persistir em torno da doen\u00e7a mental, na sociedade portuguesa dos nossos dias?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ana Matos Pires \u2013<\/strong> H\u00e1 sim. Muitos. Demasiados. Sil\u00eancios que v\u00eam de todos os s\u00edtios: dos profissionais, dos doentes, das fam\u00edlias, e muitos (muitos e ensurdecedores) sil\u00eancios da tutela (Minist\u00e9rio da Sa\u00fade), de forma continuada, independentemente de quem s\u00e3o os ministros.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 O que se mant\u00e9m por detr\u00e1s destes sil\u00eancios?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013<\/strong> O estigma, a ignor\u00e2ncia, a indiferen\u00e7a, o medo e a falta de vontade pol\u00edtica. O tema n\u00e3o d\u00e1 votos.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Tenho a impress\u00e3o que ainda n\u00e3o escutamos muito falar os\/as doentes, quando escutamos falar de doen\u00e7a mental. Isto faz algum sentido?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013<\/strong> Faz muito pouco (se \u00e9 que faz algum), mas tem uma raz\u00e3o justificativa. Parte das raz\u00f5es est\u00e3o referidas na resposta anterior. Outras s\u00e3o, sem d\u00favida, a falta de capacidade de \u201cassociativismos\u201d por parte dos\/as doentes e das fam\u00edlias (salvo raras e honrosas exce\u00e7\u00f5es de onde destaco a <a href=\"http:\/\/familiarmente.pt\/index.html\"><strong><em>Familiarmente<\/em><\/strong><\/a>), com a consequente falta de capacidade de fazer <em>lobbying<\/em>, e a baix\u00edssima literacia em Sa\u00fade Mental.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 A sexualidade est\u00e1 para a psiquiatria, como\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>as outras \u00e1reas do comportamento humano.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Se tivesse carta branca para criar &#8211; num centro hospitalar &#8211; respostas (cl\u00ednicas, terap\u00eauticas, outras) para problem\u00e1ticas que envolvam a sexualidade e a sa\u00fade mental, o que proporia sem sombra de d\u00favida?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>A formaliza\u00e7\u00e3o de uma equipa multidisciplinar com uma excelente forma\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, desde logo e em primeira m\u00e3o, para n\u00e3o \u201cpatologizar\u201d ou para \u201cdespatologizar\u201d muitas situa\u00e7\u00f5es, e para acompanhar com qualidade (usando diferentes instrumentos terap\u00eauticos) aquelas outras que de facto precisam.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Perante quadros depressivos (ou perante outros quadros de doen\u00e7a mental), os\/as profissionais de sa\u00fade equacionam com o\/a doente as quest\u00f5es da viv\u00eancia relacional, afetiva, sexual? Essa \u00e9 hoje uma preocupa\u00e7\u00e3o de peso ou as viv\u00eancias \u00edntimas est\u00e3o ainda muito \u00e0 margem?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>Sim, sem d\u00favida que equacionamos e que \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o de peso. Quero deixar claro que, felizmente, equacionamos cada vez mais e melhor, mas importa tamb\u00e9m dizer que essa preocupa\u00e7\u00e3o deve estar liberta de ju\u00edzos valorativos.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 A partir da sua experi\u00eancia cl\u00ednica (ou a partir de indicadores estat\u00edsticos), que parafilias s\u00e3o mais recorrentes, e que \u2018ferramentas\u2019 essenciais precisamos desenvolver para acompanhar estas pessoas? <\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>N\u00e3o sendo sexologista, julgo que as parafilias mais frequentes s\u00e3o o <em>fetichismo<\/em> e o exibicionismo. Parece-me importante referir que as parafilias n\u00e3o s\u00e3o\u00a0<em>ipso facto<\/em>\u00a0doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas, isto \u00e9, a parafilia, por si s\u00f3, n\u00e3o justifica um diagn\u00f3stico nem uma interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. Uma perturba\u00e7\u00e3o paraf\u00edlica \u00e9 uma parafilia que causa sofrimento ou preju\u00edzo ao pr\u00f3prio ou a terceiros. Sinalizar uma parafilia &#8211; de acordo com a natureza das puls\u00f5es, fantasias ou comportamentos &#8211; n\u00e3o significa diagnosticar uma perturba\u00e7\u00e3o paraf\u00edlica (assente no sofrimento e no preju\u00edzo do pr\u00f3prio e\/ou de terceiros). Uma parafilia ser\u00e1, ent\u00e3o, uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria mas n\u00e3o suficiente para que se diagnostique uma perturba\u00e7\u00e3o paraf\u00edlica. Uma vez diagnosticada uma perturba\u00e7\u00e3o paraf\u00edlica as ferramentas mais importantes s\u00e3o, seguramente, as psicoterapias.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Temos hoje respostas vocacionadas adequadas para os agressores sexuais, condenados por crimes desta natureza?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>N\u00e3o, francamente acho que n\u00e3o temos respostas nem suficientes nem adequadas. Aten\u00e7\u00e3o que me parece importante, num primeiro momento, perceber o que deve ser deixado no \u00e2mbito do crime e n\u00e3o ser desculpabilizado nem beneficiar com os efeitos dos ganhos secund\u00e1rios do estatuto de doen\u00e7a e as situa\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas que beneficiam de uma interven\u00e7\u00e3o terap\u00eautica adequada.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 E para as v\u00edtimas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>Menos ainda. Muito menos e com consequ\u00eancias devastadoras e cr\u00f3nicas na vida dessas pessoas.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 As nossas viv\u00eancias cada vez mais tecnol\u00f3gicas podem melhorar e\/ou piorar a nossa sa\u00fade mental? H\u00e1 algo que a preocupe quando foca esta dimens\u00e3o das nossas rotinas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>N\u00e3o sei exatamente a que chama \u201cviv\u00eancias tecnol\u00f3gicas\u201d, mas se se estiver a referir ao uso cada vez mais frequente da tecnologia nas nossas vidas estou, muito provavelmente, em contra concorrente, na medida em que n\u00e3o olho para isso como um \u201cmal\u201d em si mesmo. Julgo que, como quase tudo, depende imenso do uso que lhe \u00e9 dado.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 As quest\u00f5es da igualdade g\u00e9nero e da diversidade de g\u00e9nero (pessoas transg\u00e9nero) s\u00e3o hoje apontadas como um dos centros nevr\u00e1lgicos da mudan\u00e7a nas sociedades. Como olha para esta quest\u00e3o, enquanto psiquiatra? <\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>Enquanto psiquiatra parece-me que \u00e9 minha obriga\u00e7\u00e3o estar preparada para identificar as consequ\u00eancias que estas quest\u00f5es podem determinar, nomeadamente as rea\u00e7\u00f5es vivenciais que tantas vezes surgem em resposta \u00e0s press\u00f5es sociais negativas, \u00e0 maldade e \u00e0 ignor\u00e2ncia, e que podem desencadear verdadeiros quadros psicopatol\u00f3gicos com consequ\u00eancias muito graves. Mas para lhe ser franca, olho muito mais para estas quest\u00f5es enquanto cidad\u00e3 (que tamb\u00e9m \u00e9 psiquiatra), do que enquanto cl\u00ednica. Quanto muito, uso o ser psiquiatra para informar o meu exerc\u00edcio de cidadania.<\/p>\n<p><strong>SPSC \u2013 Nas escolas, a educa\u00e7\u00e3o para a sexualidade inscreve-se na promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da <\/strong><strong>cidadania. Em que medida \u00e9 que as abordagens da sexualidade podem representar ganhos efetivos na sa\u00fade mental de crian\u00e7as e jovens? <\/strong><\/p>\n<p><strong>AMP \u2013 <\/strong>A educa\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade tem obrigatoriamente que englobar a sa\u00fade sexual e reprodutiva e os ganhos em sa\u00fade (mental e n\u00e3o s\u00f3) est\u00e3o amplamente referidos na literatura cient\u00edfica, s\u00f3 n\u00e3o sabe quem quer ignorar. Uma sexualidade informada \u00e9 parte integrante de uma sexualidade saud\u00e1vel.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com&#8230; Ana Matos Pires \u00e9 m\u00e9dica psiquiatra e Diretora do Servi\u00e7o de Psiquiatria da Unidade Local de Sa\u00fade do Baixo Alentejo. &nbsp; Percurso&#8230; Assistente hospitalar graduada s\u00e9nior de psiquiatria. 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