{"id":9360,"date":"2019-04-08T21:25:33","date_gmt":"2019-04-08T21:25:33","guid":{"rendered":"http:\/\/spsc.pt\/?p=9360"},"modified":"2019-04-08T21:37:44","modified_gmt":"2019-04-08T21:37:44","slug":"mais-de-40-das-pessoas-portadoras-de-ostomia-passam-por-dificuldades-sexuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/spsc.pt\/index.php\/2019\/04\/08\/mais-de-40-das-pessoas-portadoras-de-ostomia-passam-por-dificuldades-sexuais\/","title":{"rendered":"Mais de 40% das pessoas portadoras de ostomia passam por dificuldades sexuais"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<strong><a href=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Foto.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-9361\" src=\"http:\/\/spsc.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/Foto-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c0 conversa com\u2026<\/strong><br \/>\nGra\u00e7a Santos, psiquiatra, psicooncologista e coordenadora da Consulta de sexologia do Centro Hospitalar e Universit\u00e1rio de Coimbra (criada em 1975).<\/p>\n<p><strong>Percurso\u2026<\/strong><br \/>\nMembro da Dire\u00e7\u00e3o da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica. Licenciada em Medicina pela Universidade de Coimbra. Assistente Hospitalar no CRI de Psiquiatria do Centro Hospitalar Universit\u00e1rio de Coimbra (CHUC). Coordenadora da Unidade de Psiquiatria de Liga\u00e7\u00e3o do CHUC. Creditada como \u201cTerapeuta Sexual\u201d pela SPSC. Creditada com a compet\u00eancia em Sexologia Cl\u00ednica pela Ordem dos M\u00e9dicos. Creditada como Psicooncologista pela Academia Portuguesa de Psicooncologia (APPO). Leciona em diversas a\u00e7\u00f5es de ensino pr\u00e9 e p\u00f3s-graduado. Formadora no Curso P\u00f3s-Graduado em Sexologia da SPSC.<\/p>\n<p><strong>Entrevista<\/strong><br \/>\nIsabel Freire<\/p>\n<p><strong>Data<\/strong><br \/>\n8 de Abril de 2019[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;3\/4&#8243;][vc_column_text]<strong>Muitos doentes evitam ou recusam olhar a ostomia por longos per\u00edodos, ap\u00f3s a cirurgia. Repulsa. Vergonha. A imagem corporal, a autestima e a vida sexual destas pessoas \u00e9 frequentemente afetada, por esta nova abertura artificial na parede abdominal. Mais de 40% &#8211; indicam os estudos &#8211; passam por dificuldades sexuais. Gra\u00e7a Santos, psiquiatra, psicooncologista e coordenadora da consulta de Sexologia do Centro Hospitalar e Universit\u00e1rio de Coimbra, diz-nos que estes pacientes lhe chegam por via da sintomatologia depressiva e ansiosa. Frequentemente, sem verbalizar previamente as dificuldades sexuais, mesmo quando as valorizam. &#8220;A interven\u00e7\u00e3o integrante da sexualidade ao longo das diversas fases da doen\u00e7a oncol\u00f3gica \u00e9 a abordagem mais adequada&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica &#8211; Como definir um estoma e uma colostomia?<\/strong><br \/>\n<strong>Gra\u00e7a Santos &#8211;<\/strong> A colostomia \u00e9 um procedimento cir\u00fargico que consiste na abertura de uma comunica\u00e7\u00e3o entre o c\u00f3lon e o exterior, permitindo a sa\u00edda de fezes e gases. A abertura artificial na parede abdominal designa-se por estoma. As fezes s\u00e3o eliminadas (de forma n\u00e3o controlada) e contidas num dispositivo (bolsa ou saco-pr\u00f3tese), aplicado sobre o estoma, devendo ser esvaziado e substitu\u00eddo regularmente. A colostomia pode ser permanente ou tempor\u00e1ria; neste \u00faltimo caso, ap\u00f3s alguns meses, na sequ\u00eancia da cura das les\u00f5es intestinais \u00e9 restabelecido o tr\u00e2nsito intestinal para o reto e \u00e2nus.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que doen\u00e7as est\u00e3o mais frequentemente na origem da colostomia, entre a popula\u00e7\u00e3o portuguesa. Sabemos isso?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> S\u00e3o os cancros do c\u00f3lon e reto, tanto no mundo como em Portugal. T\u00eam indica\u00e7\u00e3o para colostomia a colite ulcerosa, a doen\u00e7a de Crohn e a diverticulite, quando n\u00e3o respondem \u00e0 terap\u00eautica m\u00e9dica. O megacol\u00f3n, a isqu\u00e9mia intestinal e traumatismos abdominais s\u00e3o causas mais raras que podem levar a esta interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Existem estudos sobre a forma como a colostomia pode ser transformadora da maneira como a pessoa se percepciona e do conceito que passa a ter de si?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> Existem estudos que investigam o impacto psicoemocional, a qualidade de vida e a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 colostomia. Diversas dimens\u00f5es psicol\u00f3gicas t\u00eam sido avaliadas: imagem corporal, autoestima, autoconceito e perce\u00e7\u00e3o de controlo. Estas dimens\u00f5es est\u00e3o significativamente alteradas (no sentido negativo) em doentes que sofreram colostomias e relacionam-se com rea\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas de ansiedade e depress\u00e3o, frequentemente encontradas nestes pacientes. Alguns estudos identificam percentagens de cerca de 20% de depress\u00e3o clinicamente significativa em amostras de pessoas portadoras de ostomia. Para uma diminui\u00e7\u00e3o da qualidade de vida contribuem aspetos que permeiam as diversas \u00e1reas de funcionamento do indiv\u00edduo. Certas atividades l\u00fadicas (nata\u00e7\u00e3o, outros desportos, atividades ao ar livre), ainda que n\u00e3o estejam contraindicadas, s\u00e3o evitadas pelo portador de ostomia. As rela\u00e7\u00f5es interpessoais familiares, sociais e no trabalho, modificam-se. Em muitos casos verifica-se um decl\u00ednio nas participa\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es quer a n\u00edvel social quer familiar. Por vezes o doente sente que os outros se afastaram dele, o que refor\u00e7a o seu sentimento de estigmatiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h4><em>Existem sentimentos negativos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo e uma diminui\u00e7\u00e3o do valor auto-atribu\u00eddo como ser sexual. Um relacionamento mais \u00edntimo torna imposs\u00edvel disfar\u00e7ar ou esconder a exist\u00eancia do saco coletor. A sua presen\u00e7a interfere no contacto sexual e, eventualmente, pode deslocar-se, libertar conte\u00fado, odores ou sons embara\u00e7osos<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC &#8211; A bolsa coletora influencia frequentemente a forma como as pessoas veem o seu corpo, sentem o seu corpo, lidam com o seu corpo, contribuindo para uma redefini\u00e7\u00e3o da auto-imagem?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> As altera\u00e7\u00f5es da apar\u00eancia, das sensa\u00e7\u00f5es e do funcionamento, ap\u00f3s a colostomia, modificam de uma forma intensa a rela\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio com o seu corpo. Esta rela\u00e7\u00e3o era tomada como garantida e a ostomia vem criar uma disrup\u00e7\u00e3o no equil\u00edbrio. Ao representar a perda da integridade do corpo e constituir um orif\u00edcio artificial de passagem de fezes, desperta repulsa, vergonha e embara\u00e7o. Numa fase inicial, muitos doentes recusam olhar a ostomia ou proceder aos autocuidados necess\u00e1rios. Alguns mant\u00eam este evitamento por longos per\u00edodos ap\u00f3s a cirurgia. Est\u00e1 demonstrado que confrontar-se com o aspeto do estoma, aprender os cuidados a ter e o manuseamento do saco coletor, contribui para uma melhor adapta\u00e7\u00e3o, pelo que, durante a hospitaliza\u00e7\u00e3o o doente deve ser incentivado a aprend\u00ea-los. Este ensino est\u00e1 habitualmente a cargo de enfermeiros especializados que fornecem estrat\u00e9gias dirigidas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e esclarecem as d\u00favidas que o pr\u00f3prio ou os familiares tenham. Estas medidas mostram-se eficazes na redu\u00e7\u00e3o da ansiedade e medos associados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pessoa portadora de ostomia, aumentando a confian\u00e7a e a aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Que preocupa\u00e7\u00f5es, ang\u00fastias e problemas, relativos \u00e0s viv\u00eancias da intimidade, afetiva e sexual, s\u00e3o frequentemente reportados pelas pessoas portadoras de colostomia definitiva?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> As mudan\u00e7as corporais (associadas a um orif\u00edcio artificial e \u00e0 presen\u00e7a de um artefacto) transformam-se em barreiras psicol\u00f3gicas no relacionamento sexual. Existem sentimentos negativos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo e uma diminui\u00e7\u00e3o do valor auto atribu\u00eddo como ser sexual. Um relacionamento mais \u00edntimo torna imposs\u00edvel disfar\u00e7ar ou esconder a exist\u00eancia do saco coletor. A sua presen\u00e7a interfere no contacto sexual e, eventualmente, pode deslocar-se, libertar conte\u00fado, odores ou sons embara\u00e7osos. Durante a excita\u00e7\u00e3o, os movimentos intestinais, sobretudo na fase de orgasmo, t\u00eam tend\u00eancia a intensificar-se e as fezes exteriorizarem para o saco coletor, o que pode despertar vergonha. Tamb\u00e9m \u00e9 comum o medo de danificar a ostomia durante as rela\u00e7\u00f5es sexuais. A estas apreens\u00f5es soma-se ainda o receio de que o parceiro\/a n\u00e3o considere sexualmente atraente o portador de ostomia e, por conseguinte, o rejeite. Esta auto perce\u00e7\u00e3o amea\u00e7a a identidade sexual, gera grande ansiedade e pode levar \u00e0 redu\u00e7\u00e3o ou mesmo cessa\u00e7\u00e3o de contactos \u00edntimos.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; O que dizem os estudos sobre os efeitos da colostomia na sexualidade? H\u00e1 varia\u00e7\u00f5es significativas em fun\u00e7\u00e3o da idade, g\u00e9nero, orienta\u00e7\u00e3o sexual ou outros fatores?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> As modifica\u00e7\u00f5es que ocorrem na sexualidade das pessoas portadoras de ostomia s\u00e3o profundas. Para al\u00e9m das dificuldades psicoemocionais associadas \u00e0 ostomia, as dificuldades ou disfun\u00e7\u00f5es sexuais tamb\u00e9m podem ser resultado direto da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Procedimentos radicais como as ressec\u00e7\u00f5es abdominoperineais, lesam estruturas neuronais importantes para a resposta sexual, resultando em disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til e altera\u00e7\u00f5es da ejacula\u00e7\u00e3o no homem, enquanto a dispareunia e diminui\u00e7\u00e3o da lubrifica\u00e7\u00e3o vaginal se podem verificar na mulher. A preval\u00eancia de dificuldades sexuais encontrada nas pessoas portadoras de ostomia dos dois g\u00e9neros situa-se acima dos 40%. De uma forma geral, verifica-se um decl\u00ednio da atividade sexual, por compara\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade sexual pr\u00e9via, em cerca de 70% pessoas submetidas a ostomia. Estas referem que n\u00e3o retomaram a atividade sexual, retomaram-na parcialmente, ou retomaram-na ap\u00f3s longo per\u00edodo de inatividade. No homem com cancro coloretal submetido a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica as taxas de disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9ctil e de altera\u00e7\u00f5es da ejacula\u00e7\u00e3o variam entre os 11 e os 25% e os 19 e 54%, respetivamente. A incid\u00eancia de disfun\u00e7\u00e3o sexual na mulher reportada na literatura varia entre os 8% e os 58%. Esta margem t\u00e3o larga deve-se a que muitos estudos incluem um pequeno n\u00famero de mulheres e avaliam o funcionamento sexual feminino de forma diversa.<br \/>\nDe uma forma geral, o impacto sobre a sexualidade parece ser maior em indiv\u00edduos mais jovens o que se compreende, dado o maior investimento na apar\u00eancia e a maior atividade social e de sedu\u00e7\u00e3o existente nesta fase da vida. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sexual, na comunidade gay \u00e9 dada grande import\u00e2ncia \u00e0 apar\u00eancia f\u00edsica o que leva a pensar que o impacto da colostomia (percebido ou real) deve ser importante. Ora acontece que os utentes LGBTI veem menos frequentemente estes assuntos abordados pelos prestadores de cuidados de sa\u00fade. Isto deve-se ao desconforto dos profissionais de sa\u00fade que, habitualmente, n\u00e3o tiveram qualquer forma\u00e7\u00e3o para lidar com sexualidades minorit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A perman\u00eancia definitiva da ostomia \u00e9 outro fator que contribui para maiores dificuldades de adapta\u00e7\u00e3o. Contundo, os primeiros tempos ap\u00f3s a estomia parecem ser os que maiores dificuldades planteiam face \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o geral e especificamente \u00e0 sexualidade.<\/p>\n<p>Finalmente, n\u00e3o podemos, deixar de levar em conta outros fatores que condicionam em muito a viv\u00eancia da sexualidade. Refiro-me ao progn\u00f3stico da doen\u00e7a que levou \u00e0 colostomia. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s neoplasias, o estado de remiss\u00e3o ou mesmo cura, contribuem para uma melhor adapta\u00e7\u00e3o em todas as \u00e1reas. Neste caso, o significado atribu\u00eddo \u00e0 ostomia pode ser o de ter salvado a vida. J\u00e1 a exist\u00eancia de sintomas, necessidade de outros tratamentos com efeitos secund\u00e1rios importantes e acentua\u00e7\u00e3o da deteriora\u00e7\u00e3o f\u00edsica condicionam perspetivas mais negativas da qualidade de vida e a sexualidade.<br \/>\nAlguns doentes intervencionados por situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o neopl\u00e1sicas adquirem um maior bem estar por aus\u00eancia de crises, como acontece na doen\u00e7a de Crohn ou colite ulcerosa. Este melhor estado de compensa\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a traduz-se num ganho positivo da colostomia e \u00e9 propiciador de melhor adapta\u00e7\u00e3o psicossexual.<\/p>\n<h4><em>Est\u00e1 demonstrado que confrontar-se com o aspeto do estoma, aprender os cuidados a ter e o manuseamento do saco coletor, contribui para uma melhor adapta\u00e7\u00e3o, pelo que, durante a hospitaliza\u00e7\u00e3o o doente deve ser incentivado a aprend\u00ea-los. Este ensino est\u00e1 habitualmente a cargo de enfermeiros especializados que fornecem estrat\u00e9gias dirigidas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o e esclarecem as d\u00favidas que o pr\u00f3prio ou os familiares tenham<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC &#8211; Existem solu\u00e7\u00f5es concretas para minimizar a exposi\u00e7\u00e3o\/intrus\u00e3o da colostomia, na intera\u00e7\u00e3o sexual?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> O fato de se ser portador de um estoma, n\u00e3o significa o fim da atividade sexual. O casal pode implementar estrat\u00e9gias no sentido de se adaptar de forma criativa e construtiva \u00e0 nova realidade. Nunca \u00e9 de mais recordar que o coito n\u00e3o deve ser considerado o ato sexual por excel\u00eancia e que todas as express\u00f5es sexuais devem ser valorizadas de igual maneira. Algumas estrat\u00e9gias simples consistem em esvaziar o saco coletor e tomar banho antes das rela\u00e7\u00f5es sexuais, prender o saco junto ao abd\u00f3men com cinto ou faixa, que pode ser er\u00f3tica, divertida e variada de acordo com o gosto e imagina\u00e7\u00e3o do casal. Tamb\u00e9m as posi\u00e7\u00f5es que evitam press\u00e3o sobre a bolsa coletora s\u00e3o mais adequadas. Algumas ostomias permitem o uso de dispositivos obturadores, que fecham temporariamente a ostomia. Neste caso, ap\u00f3s irriga\u00e7\u00e3o do intestino (se houver indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica) \u00e9 poss\u00edvel prescindir do uso do saco coletor por per\u00edodos de tempo. A dieta ajuda a que n\u00e3o se produzam cheiros, gazes e fezes l\u00edquidas. Aconselha-se a que certos alimentos (cebola, cerveja, feij\u00e3o, ovos) sejam evitados sobretudo na refei\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e0 atividade sexual. O uso de desodorizantes aplicados no saco coletor tamb\u00e9m se mostra eficaz na redu\u00e7\u00e3o de cheiros.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Em que medida os\/as parceiros\/as das pessoas portadoras de colostomia definitiva podem\/devem apoiar o processo de adapta\u00e7\u00e3o? Eles\/as s\u00e3o habitualmente integrados no processo de apoio terap\u00eautico?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> A forma como o outro elemento do casal reage \u00e0 ostomia \u00e9 importante no processo de adapta\u00e7\u00e3o, no restabelecimento da vida sexual, no reconquistar da confian\u00e7a, e na vontade de intimidade face \u00e0s novas condicionantes. Assim, \u00e9 importante envolver precocemente o parceiro no processo de reabilita\u00e7\u00e3o geral do doente. No ensino efetuado, durante a hospitaliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 sempre envolvido um familiar, preferencialmente o companheiro\/a. Abordar a sexualidade ouvir e responder a d\u00favidas e apreens\u00f5es, bem como encorajar a comunica\u00e7\u00e3o do casal sobre as quest\u00f5es sexuais cria condi\u00e7\u00f5es para o restabelecimento da intimidade e refor\u00e7a os la\u00e7os afetivos e emocionais. Para o parceiro\/a tamb\u00e9m este suporte \u00e9 importante pois, ainda que todo o esfor\u00e7o da equipa terap\u00eautica seja dirigido ao paciente, o parceiro\/a tem rea\u00e7\u00f5es emocionais semelhantes e muitas vezes sente que n\u00e3o obt\u00e9m qualquer suporte ou esclarecimento das suas pr\u00f3prias d\u00favidas: (quando podemos retomar a atividade sexual? O que nos \u00e9 permitido ou desaconselhado? como reagir, como transmitir mensagens de suporte? devo abster-me de demonstra\u00e7\u00f5es sexuais ou esperar que seja o\/a companheiro a faz\u00ea-lo?). Estas s\u00e3o algumas das muitas interroga\u00e7\u00f5es que o\/a parceiro\/a levanta e que o fazem sentir-se perdido.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; A viv\u00eancia sa\u00fad\u00e1vel da sexualidade em doentes com colostomia tem fatores (et\u00e1rios, psicol\u00f3gicos, sociais, culturais, outros) reconhecidos como facilitadores?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> Tal como noutras situa\u00e7\u00f5es de doen\u00e7a cr\u00f3nica, fatores relacionados com a doen\u00e7a, com o indiv\u00edduo e com o contexto sociocultural, contribuem ou dificultam a viv\u00eancia da sexualidade. Como se disse anteriormente, o bom progn\u00f3stico da doen\u00e7a, a resolu\u00e7\u00e3o ou diminui\u00e7\u00e3o acentuada de sintomas, a aus\u00eancia de outros tratamento coadjuvantes com efeitos secund\u00e1rios a n\u00edvel da sexualidade, bem como a inexist\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es do estoma predisp\u00f5em a uma mais f\u00e1cil readapta\u00e7\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio, o seu n\u00edvel educacional e sociocultural parece n\u00e3o estar relacionado com uma melhor reabilita\u00e7\u00e3o sexual. J\u00e1 a sua atitude face \u00e0 doen\u00e7a e \u00e0 sexualidade condicionam, em grande medida, o sucesso desta reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Verifica-se, ainda, que a exist\u00eancia de um casal ou de uma rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel torna mais f\u00e1cil a adapta\u00e7\u00e3o a n\u00edvel da sexualidade, sobretudo se a satisfa\u00e7\u00e3o sexual pr\u00e9via era grande. Caso as rela\u00e7\u00f5es sexuais sejam com novos parceiros\/o, o sentimento de embara\u00e7o, o medo de rejei\u00e7\u00e3o e a ansiedade de execu\u00e7\u00e3o estar\u00e3o presentes em n\u00edveis mais altos em cada contacto sexual. Tamb\u00e9m a cren\u00e7a de que a sexualidade s\u00f3 vale a pena se houver uma resposta sexual completamente \u00edntegra, compat\u00edvel com a c\u00f3pula, \u00e9 desincentivadora das viv\u00eancias de intimidade sexual. Esta cren\u00e7a desvaloriza os contactos sexuais menos genitalizados e a realiza\u00e7\u00e3o pessoal como partilha de intimidade sexual.<\/p>\n<p>No contexto sociocultural atual prevalecem os mitos que associam a sexualidade a gente jovem, bonita e saud\u00e1vel. Se o portador de ostomia e o\/a parceiro\/a tamb\u00e9m os patilharem est\u00e3o criadas condi\u00e7\u00f5es que favorecem o evitamento e o insucesso da reabilita\u00e7\u00e3o sexual. De uma forma geral as pessoas menos r\u00edgidas nas suas conce\u00e7\u00f5es, mais capazes de mudan\u00e7a e de renegocia\u00e7\u00e3o da sua atividade sexual, se tiverem parceiro\/a e uma boa satisfa\u00e7\u00e3o sexual pr\u00e9via \u00e0 cirurgia, s\u00e3o as que mais capazes se mostram de lidar com as consequ\u00eancias da colostomia.<\/p>\n<h4><em>O casal pode implementar estrat\u00e9gias no sentido de se adaptar de forma criativa e construtiva \u00e0 nova realidade. Nunca \u00e9 de mais recordar que o coito n\u00e3o deve ser considerado o ato sexual por excel\u00eancia e que todas as express\u00f5es sexuais devem ser valorizadas de igual maneira. Algumas estrat\u00e9gias simples consistem em esvaziar o saco coletor e tomar banho antes das rela\u00e7\u00f5es sexuais, prender o saco junto ao abd\u00f3men com cinto ou faixa, que pode ser er\u00f3tica, divertida e variada de acordo com o gosto e imagina\u00e7\u00e3o do casal. Tamb\u00e9m as posi\u00e7\u00f5es que evitam press\u00e3o sobre a bolsa coletora s\u00e3o mais adequadas<\/em><\/h4>\n<p><strong>SPSC &#8211; H\u00e1 um trabalho de base, fundamental, que sinta que \u00e9 preciso fazer com todas as pessoas portadoras de colostomia definitiva, que estejam a viver o processo de adapta\u00e7\u00e3o com muita dificuldade?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> A informa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via \u00e0 cirurgia sobre a colostomia, nomeadamente de quest\u00f5es sexuais mostra-se \u00fatil. Esta psico-educa\u00e7\u00e3o precoce, no contexto de cuidados de sa\u00fade, ajuda o doente de diversas formas; por um lado, sinaliza que existe uma comunica\u00e7\u00e3o aberta sobre este tema e que as dificuldades e apreens\u00f5es podem ser discutidas de forma a encontrar alternativas que protejam a sexualidade. Por outro lado, contribui para promover uma sexualidade menos dependente do desempenho e mais valorativa da intimidade e do contacto sensual.<br \/>\nDe igual forma, o ensino dos cuidados di\u00e1rios a dispensar \u00e0 ostomia, com a inclus\u00e3o do\/a parceiro\/a, permite estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com o profissional de sa\u00fade e constitui uma boa altura para um espa\u00e7o de ventila\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es, e de d\u00favidas do doente e parceiro\/a face \u00e0 sexualidade. Diversos elementos da equipa terap\u00eautica em contextos diferentes dos cuidados devem abordar estas quest\u00f5es sexuais, eliminando a sensa\u00e7\u00e3o no doente, de que est\u00e1 sozinho e sem suporte. O modelo PLISSIT estabelece diversos graus de atua\u00e7\u00e3o, desde n\u00edveis mais b\u00e1sicos, que consistem em abordar o tema, informar e fazer sugest\u00f5es especificas (aconselhamento), at\u00e9 \u00e0 terapia sexual que deve ser levada a cabo por terapeuta sexual.<br \/>\nOs grupos de suporte tamb\u00e9m se t\u00eam mostrado \u00fateis (pela partilha de dificuldades, formas de lidar e solu\u00e7\u00f5es) por\u00e9m, entre n\u00f3s, estes grupos terap\u00eauticos n\u00e3o t\u00eam muita tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Pela sua experi\u00eancia, as pessoas portadoras de colostomia definitiva procuram ajuda m\u00e9dica\/psicol\u00f3gica para a sua sexualidade ou este tema \u00e9 facilmente relegado para segundo plano?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> Quando os doentes s\u00e3o referenciados para consultas de psicologia ou psiquiatria, \u00e9 habitualmente por sintomatologia depressiva e ansiosa e\/ou dificuldades de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 colostomia. No decurso da abordagem feita em consulta, surgem as dificuldades sexuais, que o doente valoriza, mas que, muitas vezes, n\u00e3o foram previamente verbalizadas. Se, durante este processo de ajuda, n\u00e3o inquirirmos especificamente sobre a sexualidade, na grande maioria dos casos o doente tamb\u00e9m n\u00e3o as reportar\u00e1 espontaneamente.<\/p>\n<p><strong>SPSC &#8211; Os profissionais de sa\u00fade s\u00e3o suficientemente sens\u00edveis para a import\u00e2ncia da abordagem da sexualidade com estes pacientes, informando ou referenciando para as consultas da especialidade, quando necess\u00e1rio?<\/strong><br \/>\n<strong>GS &#8211;<\/strong> A no\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia da sexualidade e a necessidade de a abordar nos cuidados de sa\u00fade j\u00e1 est\u00e3o muito presentes entre os profissionais de sa\u00fade. No entanto, n\u00e3o o fazem regularmente, seja por quest\u00f5es de tempo, de falta de prepara\u00e7\u00e3o, dificuldade em falar de assuntos sexuais, ou entenderem que este assunto cabe a outro profissional.<br \/>\nQuanto \u00e0 referencia\u00e7\u00e3o para consultas de especialidade, n\u00e3o existe uma resposta estruturada para estas situa\u00e7\u00f5es, que permita responder a um n\u00famero mais substancial de pedidos. Diga-se por\u00e9m, que a interven\u00e7\u00e3o integrante da sexualidade ao longo das diversas fases da doen\u00e7a (diagn\u00f3stico, tratamento, seguimento e reabilita\u00e7\u00e3o) \u00e9 a abordagem mais adequada na grande maioria destes doentes. Atualmente os IPO de Lisboa e Porto j\u00e1 a integram na presta\u00e7\u00e3o habitual de cuidados de sa\u00fade ao doente com cancro.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text] \u00c0 conversa com\u2026 Gra\u00e7a Santos, psiquiatra, psicooncologista e coordenadora da Consulta de sexologia do Centro Hospitalar e Universit\u00e1rio de Coimbra (criada em 1975). Percurso\u2026 Membro da Dire\u00e7\u00e3o da Sociedade Portuguesa de Sexologia Cl\u00ednica. Licenciada em Medicina pela Universidade de Coimbra. Assistente Hospitalar no CRI de Psiquiatria do Centro Hospitalar Universit\u00e1rio de Coimbra (CHUC). 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