A enfermagem tem um papel de primeira linha na promoção da saúde sexual e reprodutiva


A enfermagem tem um papel de primeira linha na promoção da saúde sexual e reprodutiva

À conversa com…
Manuela Madeira, enfermeira, terapeuta sexual e membro da Assembleia Geral da SPSC
madeiramanuela@sapo.pt

 

Data
4 de Março de 2017

 

Entrevista

Isabel Freire

 

 

Manuela Madeira é enfermeira, mestre em sexologia e terapeuta sexual. Coordena a equipa de enfermagem da Ginemed, empresa que presta serviços na área da infertilidade. Embora defenda que a sexualidade tem hoje maior e melhor cobertura nos serviços de saúde, Manuela Madeira considera que há ainda muito por fazer, e que à/ao enfermeira/o cabe um papel de primeira linha, o de educador.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – O assunto da sexualidade (para além da função reprodutiva) já não é ‘delicado’ de abordar no universo dos cuidados de saúde?

Manuela Madeira – A sexualidade tem sofrido uma progressão enorme dentro do universo dos cuidados de saúde. Os utentes falam cada vez mais sobre o assunto e os profissionais começaram a ser ‘obrigados’ ter conhecimentos, a atualizá-los, a buscar respostas para as dúvidas que lhes são colocadas. Apesar disso, ainda são muitos os profissionais que chutam para o canto os assuntos da sexualidade. Se não houver na equipa um só elemento que tenha especial apreço por esta área, as perguntas correm o risco de ficar sem resposta. E a vida de muitas pessoas prossegue com as mesmas lacunas.

SPSC – Os discursos da saúde sexual e reprodutiva dirigem-se ao homem e à mulher, numa medida de equilíbrio, ou dirigem-se sobretudo à mulher? Porquê?

MM – O foco esteve sempre mais na mulher. Porque o tempo de fertilidade é mais curto para elas, daí a maior urgência em educar e informar. Porque eram maioritariamente culpabilizada pelo insucesso em projetos reprodutivos. Porque a mulher sempre teve uma maior dificuldade na vivência em pleno da sua saúde sexual.

Hoje em dia, tenta-se que haja um equilíbrio nos discursos. O homem assume já um papel importante na medicina de reprodução, seja pelos estudos que levam ao diagnóstico do problema do casal ou pela informação que lhe é prestada no sentido de alertar para o que pode afetar a sua fertilidade. Além disso, também se começa a aconselhar casais homossexuais, dando-lhes alternativas e possibilidades de participar ou de conceber uma criança.

SPSC – A saúde sexual e a saúde reprodutiva são tratadas nos serviços de saúde, de forma conectada e dialogante?

MM – A grande maioria das instituições tem uma consulta de planeamento familiar a funcionar. É um trabalho que está a ser feito há muitos anos. Podemos afirmar orgulhosamente que somos um dos países mais avançados nesta área. Mas existem várias condicionantes que podem alterar significativamente este diálogo, nomeadamente a cultura ou crenças religiosas, não só dos utentes, mas também dos profissionais de saúde. Essa conexão entre saúde sexual e saúde reprodutiva poderá verificar-se eventualmente num serviço de Ginecologia ou de Psiquiatria, mas a sua dissociação ainda é bem visível. O que se pretende sobretudo em matéria de saúde sexual é evitar uma gravidez não planeada. E a saúde reprodutiva tem como fim a obtenção de uma gravidez, recorrendo aos meios possíveis e disponíveis, muitas vezes sem que seja perguntado ao casal como se relacionam sexualmente. Tenho a sensação que a saúde sexual acaba por ser o parente pobre deste diálogo.

SPSC – A falta de saúde sexual coloca em risco a saúde reprodutiva, por exemplo quando…

MM – Os casais vivem separados, à distância de muitos quilómetros. Esta realidade da emigração, tão comum hoje em dia, pode dificultar a concretização do projeto reprodutivo, mais ainda se existir alguma condicionante orgânica do casal. Para além disto, refira-se que existem ainda nos nossos tempos, casais sem noção do ciclo da mulher, casais com dificuldades sexuais que se habituaram a esse registo, acabando por nunca procurar ajuda.

SPSC – E o contrário? Exemplos recorrentes de falta de saúde reprodutiva que ponham em causa a saúde sexual?

MM – A infertilidade (área em que trabalho diariamente) traz muitas condicionantes a um casal. Muitas mulheres referem que não se sentem completas, por não conseguirem dar um filho ao parceiro. Este sentimento pode afetar gravemente a sexualidade. Retira muitas vezes erotismo e prazer à vida íntima. O ato sexual torna-se uma tentativa para alcançar um objetivo. Outro fator de peso é a idade. O plano de ter um filho é cada vez mais adiado. Quando chega a altura, se não surge logo a gravidez, o casal pode começar a entrar em stresse. E a notícia de um problema de infertilidade pode levar a uma série de alterações pessoais e relacionais. Se o afeto e a comunicação falharem, a relação do casal pode entrar em rutura. Também existem situações contrárias, de maior união perante a adversidade. A intervenção especializada (o mais precocemente possível) tem um papel determinante no futuro destas pessoas, e na manutenção de uma saúde sexual satisfatória para ambos.

SPSC – A área da (in)fertilidade está cheia de novidades…

MM – Esta é uma área que está agora em grande evolução, nomeadamente com o alargamento da permissão para mulheres solteiras e casais de lésbicas recorrerem a técnicas de Procriação Medicamente Assistida. Hoje há a possibilidade de se fazer fertilização recíproca: uma das mulheres dá o óvulo (que origina um embrião ao ser inseminado com esperma de dador) e a outra mulher pode receber esse embrião, criando-se assim a participação das duas na gravidez. Temos também a gestação de substituição para mulheres que haviam visto o seu sonho de ser mães totalmente afastado. Estes progressos fazem-me acreditar num futuro melhor. Todos os esforços dos sonhadores que enveredaram um dia pela área da sexualidade, estão realmente a dar fruto.

SPSC – Em que serviços do sistema de saúde é imprescindível o diálogo entre reprodução e sexualidade?

MM – Devemos preocupar-nos com um maior aprofundamento deste diálogo nos serviços de oncologia, de fisiatria, de cardiologia, diabetologia – há muitas fragilidades nestas áreas e o papel de uma pessoa que possa aconselhar, fará verdadeiramente toda a diferença no continuum saúde sexual e reprodutiva. Mas este diálogo deve ser uma realidade em todos os serviços, pois estas componentes estão presentes ao longo da vida.

SPSC – Que papéis pode assumir o/a enfermeiro/a neste desígnio de conectar a saúde sexual com a saúde reprodutiva?

MM – Quero salientar o papel do enfermeiro como profissional de primeira linha. Está sempre acessível ao utente. É normalmente uma referência para falar do que quer que seja. Daí ser tão importante esta classe de profissionais ter alguma base sobre a temática da saúde sexual e reprodutiva. É o/a enfermeiro/a que faz a primeira abordagem, independentemente da faixa etária. É ele/a que irá transmitir segurança para que o utente confie receios e angústias. O enfermeiro tem um papel fundamental de educador. A consulta de enfermagem tem vindo a ser mais e mais implementada. Possibilita tirar dúvidas, contestar informação, “trocar por miúdos” o que foi dito pelo médico.

SPSC – O que podem os enfermeiros fazer em termos de prevenção da saúde sexual e reprodutiva juntos dos jovens?

MM – É preciso informar para as práticas saudáveis desde pequenino (idade pré-escolar). Esta intervenção precoce conduz a uma boa saúde sexual, e tem por consequência uma boa saúde reprodutiva. Ainda hoje não estamos despertos para o facto de as infeções sexualmente transmissíveis afetarem drasticamente a fertilidade. Nos centros de saúde, nas consultas de planeamento familiar, a preocupação não deve ser somente a de evitar uma gravidez indesejada, mas também de prevenir as infeções recorrentes, e mal medicadas, que conduzem muitas vezes à infertilidade. Educar para o cuidado do corpo, para uma boa alimentação. É preciso reforçar que o álcool, o tabaco e as drogas têm um papel importante como agentes causadores de alterações na fertilidade (dos próprios e dos descendentes). Aconselho a consulta deste site, onde é possível fazer uma avaliação da própria fertilidade e obter conselhos de acordo com a informação prestada pelo visitante.

SPSC – Onde deve desenvolver-se o trabalho com os jovens?

MM – O ideal será ir ao encontro dos jovens nas escolas, nas instituições de saúde, mas também levar esse conhecimento a outros lugares. Festivais de música e bancas de rua perto dos locais de diversão, por exemplo.

SPSC – Como é que as questões da saúde sexual surgiram no seu espectro de interesses?

MM – Quando terminei o curso de enfermagem e comecei a dar aulas numa escola profissional fascinei-me pelo ensino. Posteriormente trabalhei no serviço de obstetrícia de um hospital, onde via que muitas das questões colocadas pelas grávidas sobre sexualidade causavam constrangimentos em alguns elementos da equipa. Eu chegava-me sempre à frente para fazer esses ensinos e desmistificar questões. Quando decidi que queria continuar a minha formação académica, deparei-me com o mestrado em sexologia, e a posteriori fiz o curso de terapeuta sexual. Tem sido um percurso com muitos ganhos pessoais. Tem sido um orgulho poder levar a muitos sítios diferentes, informação sobre questões conotadas como banais, mas que na prática ainda constituem verdadeiros tabus.