“Existe a perceção generalizada de que a saúde sexual e reprodutiva do homem tem vindo a piorar”

Data da Notícia: Março 9, 2017

“Existe a perceção generalizada de que a saúde sexual e reprodutiva do homem tem vindo a piorar”

À conversa com…
Nuno Louro, urologista, andrologista, responsável da consulta de Andrologia do Centro Hospitalar do Porto, nunorlouro@gmail.com

 

Data
9 de Março de 2017

 

Entrevista

Isabel Freire

Hábitos de vida pouco saudáveis colocam em risco a vida sexual e reprodutiva do homem. Nuno Louro, urologista e andrologista, alerta para esta evidência. Na consulta de Andrologia do Centro Hospitalar do Porto, os problemas mais recorrentes são a disfunção erétil e as perturbações da ejaculação. Responsável por este atendimento, Nuno Louro constata que muitos homens continuam a sentir de forma chocante a notícia da infertilidade. “A sexualidade e a paternidade são dos pilares mais fortes em que assenta a ideia de masculinidade e, quando são abalados, todo o edifício fica em risco”.

Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica – Nas últimas décadas, a saúde sexual e reprodutiva do homem tem melhorado ou piorado, do ponto de vista dos problemas?

Nuno Louro – Não dispomos de dados científicos claros para responder assertivamente. Existe, no entanto, a perceção generalizada de que tem vindo a piorar. É possível que este aparente agravamento esteja contaminado de um viés inultrapassável: o facto de existir maior visibilidade e ser atualmente muito mais fácil discutir estes assuntos, retirando-os (infelizmente ainda apenas) parcialmente, de uma certa clandestinidade onde estiveram durante décadas. Assim, é possível que não exista verdadeiramente um aumento da prevalência, mas também não o podemos descartar.

SPSC – Que recomendações julga essenciais para que um homem possa ter uma vida sexual e reprodutiva saudável?

NL – As questões relacionadas com o estilo de vida são fulcrais. A ideia da aparente degradação da saúde sexual e reprodutiva do homem está associada às alterações na forma como vivemos e nos relacionamos com o meio, atualmente. Os principais fatores de risco conhecidos para a disfunção erétil (e que são os mesmos das doenças cardiovasculares) estão intimamente associados a uma dieta pouco saudável, ao tabagismo, ao sedentarismo e obesidade, com consequente desenvolvimento de doenças como a diabetes mellitus ou a hipertensão arterial. No âmbito da fertilidade, estes hábitos – cada vez mais frequentes – estão também associados a alterações claramente negativas, com desequilíbrio de alguns mecanismos essenciais ao bom funcionamento do organismo. É essencial manter uma alimentação saudável, associada à prática regular de exercício físico, abolindo por completo alguns hábitos perniciosos como tabagismo e a ingestão excessiva de álcool.

SPSC – Que problemáticas da disfunção sexual masculina surgem mais recorrentemente na sua consulta, no Centro Hospital do Porto?

NL – A alteração da função sexual mais representada nas nossas consultas de Andrologia é, sem dúvida, a disfunção erétil. Isto está relacionado não só à elevada prevalência do problema, mas também à introdução de fármacos orais, com elevada taxa de sucesso e perfil de segurança favorável. Estão hoje amplamente difundida, originando a quebra de muitos tabus que rodeavam a sexualidade e as disfunções sexuais, e propagando a ideia, nem sempre verdadeira, de que estes problemas são curáveis. É claro que, se o doente tem a noção que o seu problema poderá ter solução, é muito mais provável que procure ajuda. E esta foi a grande vantagem da divulgação muito abrangente das “novas” terapêuticas para a disfunção erétil. Outro problema também frequente são as perturbações da ejaculação, nomeadamente a ejaculação prematura, que também à boleia do marketing farmacêutico, passou a ser muito mais frequentemente abordada nas nossas consultas. Apesar de serem estes os problemas mais frequentes, nunca podemos esquecer que podem coexistir (e assim é com frequência) várias disfunções no mesmo indivíduo, por exemplo, a queixa de diminuição do desejo sexual é, muitas vezes, apenas uma consequência da frustração sentida nos relacionamentos íntimos pela presença duma perturbação da ereção ou da ejaculação.

Em última análise, a forma de diferentes gerações apresentarem e lidarem com a questão [da disfunção sexual] nem sempre é tão diferente como à partida poderíamos supor

SPSC – Em qual das problemáticas sexuais masculinas é mais difícil apurar se a causa é de natureza orgânica, psicológica ou mista?

NL – Em todos os grupos de disfunções existem casos que têm uma base claramente orgânica, como por exemplo os dos doentes com uma ejaculação prematura primária (aqueles que têm o problema desde a primeira interação sexual) ou dos doentes diabéticos e hipertensos, polimedicados, com disfunção erétil. Mas mesmo nestes casos é impossível compartimentar a parte orgânica da reação psicológica do doente a estas questões, e da forma como isso irá influenciar a perceção de si próprio ou o relacionamento com os outros. Desta forma, apesar da causa da disfunção não ser psicológica, as questões desta índole poderão ser um fator de manutenção ou de agravamento do problema. É evidente que, quando temos uma disfunção erétil num indivíduo muito jovem, sem patologias conhecidas, é muito mais provável que a causa seja psicogénica, assim como nas situações em que existe um evento bem definido a partir do qual o problema se manifestou. Mas, mesmo nestes casos aparentemente mais paradigmáticos, devemos dar algum espaço para a possibilidade de uma causa diferente e permitir ponderar todas as possibilidades.

SPSC – Os pacientes que se queixam de sintomas sexuais disfuncionais vêm normalmente à consulta em casal (com a companheira ou o companheiro) ou preferem fazê-lo sozinhos?

NL – É muito variável, mas tenho a sensação que cada vez mais companheiras (creio que mais do que os companheiros) querem acompanhar os pacientes e envolver-se no processo diagnóstico e terapêutico. E também tenho a sensação que muitas vezes não o fazem por questões profissionais, uma vez que nem sempre é fácil obter a dispensa laboral para este acompanhamento. De qualquer forma continuamos a ver uma maioria de pacientes que vêm à consulta sozinhos. Isto nem sempre é negativo. Por vezes acabamos por conseguir informações mais detalhadas, mais íntimas e essenciais, que poderiam não ser divulgadas na presença da companheira/o. Nestes casos, fica a faltar a outra versão, o contexto relacional, que é bem mais fácil de percecionar na presença de ambos. Uma questão interessante é que não noto uma diferença significativa em diferentes gerações, sendo no entanto notórias diferenças no papel da acompanhante. Nos casais com mais idade, a mulher vem para se assegurar que ele diz tudo bem, tem as informações sobre as doenças e a medicação, mas participa relativamente pouco no restante processo. Nos casais mais jovens evidencia-se frequentemente nas mulheres a força motriz da ida à consulta. Envolvem-se bastante mais no desenrolar da consulta e nas decisões terapêuticas.

SPSC – Considerando a sua experiência, é possível identificar formas distintas de lidar com a ideia de ‘não funcionar’ sexualmente, em diferentes gerações de homens portugueses?

NL – Há questões que são transversais a qualquer geração. A disfunção sexual faz o homem questionar a sua virilidade. Mesmo o homem de mais idade (que sente uma certa “normalidade” por saber que a disfunção sexual está associada ao envelhecimento) acaba por ter grandes dificuldades em aceitar o problema. Em homens mais jovens, a maior abertura à discussão das questões associadas à sexualidade esbarra na sensação de maior gravidade e “anormalidade” do problema. Sentem que não é suposto que um homem jovem sofra de problemas desta índole. Em última análise, a forma de diferentes gerações apresentarem e lidarem com a questão nem sempre é tão diferente como à partida poderíamos supor.

Tenho a sensação que cada vez mais companheiras (creio que mais do que os companheiros) querem acompanhar os pacientes e envolver-se no processo diagnóstico e terapêutico.

SPSC – É verdade que no passado (ainda em meados do século XX) a infertilidade do casal era tacitamente atribuída a um problema feminino?

NL – Infelizmente não estamos a falar duma realidade do século passado. Ainda hoje é frequente vermos casais em que o estudo do casal infértil quase se resume ao estudo da mulher ou em que o espermograma (o estudo básico das causas masculinas de infertilidade) apenas é solicitado quando se comprova não existir qualquer problema com a mulher.

SPSC – Hoje em dia, que problemáticas estão mais frequentemente na origem da infertilidade masculina?

NL – Apesar dos esforços para conseguir obter um diagnóstico, 25 a 30% dos doentes apresentam uma infertilidade idiopática, ou seja, sem causa conhecida. Temos depois uma panóplia de situações que podem causar ou contribuir para a infertilidade do casal. Existem várias condições genéticas (como o Síndrome de Klinefelter, a ausência dos canais deferentes ou de partes do cromossoma Y essenciais para a espermatogénese). Também algumas malformações, como a Criptorquidia (situação em que um ou ambos os testículos não se encontram no escroto à nascença) que podem conduzir, mesmo se corrigidas, a dificuldades de conceção. Uma das situações mais prevalentes na nossa consulta é o varicocele, condição em que, por vários mecanismo, pode haver lesão testicular com repercussão na espermatogénese (produção de espermatozoides). Também vemos com alguma frequência situações em que a infertilidade é consequência do tratamento de várias doenças. Os exemplos mais frequentes são a quimioterapia ou radioterapia, mas também as cirurgias testiculares ou cerebrais. Felizmente é possível, na maioria destas situações, fazer a criopreservação do esperma, prévia à realização dessas terapêuticas potencialmente lesivas da fertilidade. E em relação à disfunção erétil, preocupa-nos bastante a alteração do estilo de vida (maus hábitos alimentares, sedentarismo, associados a hábitos claramente nocivos como o tabagismo).

SPSC – São problemas reversíveis, com solução médica?

NL – Depende. Em alguns casos, quando o problema está a nível da hipófise (no cérebro) e não no testículo, é possível, com terapêutica farmacológica, induzir a produção de espermatozoides. Na minha opinião são as situações mais recompensadoras para quem trabalha nesta área. Do ponto de vista cirúrgico existem também algumas possibilidades, como a correção do varicocele (com taxas de sucesso algo imprevisíveis) ou a tentativa de recanalizar algumas situações de obstrução. Em muitos casos, apesar de não ser possível tratar a causa da infertilidade, conseguimos recolher espermatozoides diretamente do testículo, de forma a obter gâmetas para utilização em técnicas de procriação assistida. Para além destas situações não podemos esquecer que a alteração de um estilo de vida nocivo, apesar de nem sempre reverter a infertilidade, aumenta as probabilidades de conceção espontânea ou por técnicas de reprodução assistida.

SPSC – Que tipo de ansiedades e angústias são recorrentes nos homens seguidos em consulta de infertilidade?  

NL – Em primeiro lugar têm que lidar com a notícia, que é frequentemente um choque. A maioria, creio, não estaria a prever que o problema fosse deles ou também deles, provavelmente porque socialmente continua a ser visto como um problema maioritariamente da mulher. A sexualidade e a paternidade são dos pilares mais fortes em que assenta a ideia de masculinidade e, quando são abalados, todo o edifício fica em risco. Existe também um questionar incessante da causa, a tentativa de identificar comportamentos, atitudes que possam ser responsáveis pelo problema. Como, em muitos casos, não é possível reverter a situação, notamos algum desalento e desânimo. Por outro lado, têm alguma dificuldade em exprimir estas dúvidas e emoções, muitas vezes porque sentem que têm que ser o elemento forte do casal, o que os impede de manifestar angústias o que, seguramente, não será muito benéfico para lidar com o processo que se avizinha.

SPSC – Um processo de reprodução medicamente assistida pode ‘imprimir’ à sexualidade do casal dificuldades que não existiam antes?

NL – Claramente. Aliás, este grupo de homens e casais tem taxas de satisfação com a sua vida sexual significativamente menores que os homens e casais da mesma idade sem problemas de fertilidade. O facto de, frequentemente, as relações sexuais passarem a ser programadas diminui de forma significativa o envolvimento, podendo o ato ficar despido da componente emocional, reduzido à componente mecânica da inseminação. E vemos também com frequência uma diminuição importante do número de relações sexuais, muitas vezes confinadas ao período fértil da mulher, seguidas de semanas de angústia à espera do resultado, reiniciando-se continuamente o ciclo após a constatação de ausência de gravidez. A sensação de que a paternidade só será possível através de procedimentos técnicos (e não de forma “natural”) também pode imprimir aos relacionamentos sexuais um cunho particular, como se já nem fossem necessários, diminuindo a intimidade do casal e contribuindo para uma alteração marcada da forma como se relacionam sexualmente.